Capitulo 02: Movimentação
O sol ainda iluminava o vilarejo, mas já se inclinava no horizonte, tingindo o céu com tons de dourado e vermelho. A tarde morria lentamente, e o frio começava a tomar o ar.

Haldor atravessou o pátio do conselho com passos firmes. Os aldeões observavam de longe, em silêncio. O rumor sobre o que havia sido dito naquela sala já começava a se espalhar, como sempre acontecia.

Ele entrou em sua tenda — ampla, reforçada com vigas de madeira escura e peles grossas que protegiam do vento do norte. Lá dentro, a luz do entardecer atravessava a abertura superior, desenhando sombras longas sobre a mesa.

Haldor sentou-se pesadamente.

Respirou fundo.

Seus dedos tamborilaram na madeira.

Algo o inquietava.

Lentamente, seu olhar parou sobre uma pequena gaveta embutida na lateral da mesa.

Ele ficou alguns segundos encarando-a.

Então a puxou.

Dentro estavam pergaminhos, um tinteiro escuro e lápis de carvão bem alinhados. Haldor retirou uma folha e a abriu diante de si.

Hesitou.

Mas começou a escrever.

Ele parou.

Releu cada palavra.

O vento soprou do lado de fora, fazendo as peles da tenda se moverem suavemente. O cheiro de pinho e terra fria entrou no ambiente.

“Algo do passado”.

Era pouco. Mas suficiente.

Haldor enrolou o pergaminho com firmeza e o amarrou com um fio de couro. Aproximou uma vela da chama da lamparina. A cera começou a derreter, escorrendo sobre o selo.

Ele pressionou o sinete.

Quando retirou o anel, o brasão da Casa Skarsson estava marcado na cera.

Haldor permaneceu observando o selo por alguns instantes.

A cera ainda estava quente sob seus dedos, o símbolo real marcado com firmeza no pergaminho. O peso daquele documento parecia maior do que qualquer espada que já empunhara.

Trezentos homens.

Não era um pedido simples.

Se estivesse errado, seria visto como fraco.
Se estivesse certo…

Um trovão distante ecoou entre as montanhas, apesar do céu ainda claro. O som reverberou pelo vale como um presságio.

Haldor ergueu o olhar. Ele chamou um guarda com um gesto breve.

O soldado entrou e fez continência. Jovem, postura firme, mas ainda carregando a insegurança de quem não tinha visto muitas campanhas. Haldor o observou com atenção, avaliando cada detalhe.

— Qual é o seu nome, soldado?

O homem pareceu surpreso pela pergunta.

— Maxxiel, senhor. Maxxiel Lathell.

Haldor repetiu lentamente:

— Maxxiel Lathell.

Então estendeu o pergaminho.

— A partir deste momento, você é nomeado Mensageiro Real.

O silêncio caiu pesado.

Maxxiel não pegou o documento.

— Senhor… deve haver algum engano.

Haldor arqueou levemente a sobrancelha.

— Explique.

— Com todo respeito… há homens mais experientes. Capitães, veteranos. Eu sou apenas um soldado de linha. Não tenho títulos. Não tenho feitos.

— Justamente por isso.

Maxxiel hesitou.

— Senhor, não estou recusando a ordem. Mas essa missão… — ele respirou fundo. — Eu posso falhar. Não conheço bem as rotas até a capital. Posso ser seguido. Posso… comprometer o plano.

Haldor aproximou-se alguns passos.

— E se eu enviasse um capitão?

— Seria mais seguro.

— Não. Seria mais visível.

Ele apontou para o mapa aberto.

— Os conselheiros observam tudo. Cada movimento, cada deslocamento. Se um oficial deixar esta fortaleza agora, suspeitarão. Se um pequeno grupo sair, levantarão perguntas. Se um jovem soldado partir sozinho… ninguém notará.

Maxxiel ainda parecia dividido.

— Ainda assim, senhor… a responsabilidade é grande demais.

— A responsabilidade sempre é — respondeu Haldor. — A diferença é quem tem coragem de carregá-la.

O jovem desviou o olhar.

— Eu não sei se sou esse homem.

Haldor ficou em silêncio por alguns segundos.

— Eu também não sabia, quando recebi meu primeiro comando.

Maxxiel ergueu o olhar.

— Tive medo. Achei que morreria no primeiro dia. Achei que decepcionaria todos.

Ele estendeu novamente o pergaminho.

— Mas alguém confiou em mim. E foi isso que me tornou quem sou.

O silêncio entre os dois mudou.

— Você é honesto. Não finge coragem. Isso é raro.

Maxxiel respirou fundo.

— E se eu falhar?

— Então falharemos juntos.

A resposta veio firme, sem hesitação.

— Porque esta decisão é minha.

Os olhos do jovem soldado endureceram, a dúvida cedendo lugar à determinação.

Ele finalmente recebeu o pergaminho.

— É uma honra, senhor. Não falharei.

Fez uma pausa.

— Mas preciso dizer a verdade. Não conheço bem o caminho até a capital.

Haldor assentiu.

— Honestidade continua sendo sua maior força.

Ele apoiou as mãos na mesa.

— Você passará por Valverde. Lá encontrará alguém que conheça as rotas. Procure um guia confiável.

— Não devo levar escolta?

— Não.

— Os conselheiros?

— Exatamente.

Maxxiel assentiu.

— Entendo.

Haldor colocou a mão no ombro dele.

— Discrição. Velocidade. E coragem.

O sol tocava o horizonte, tingindo a tenda de vermelho.

— Parta antes do anoitecer.

Maxxiel fez continência e saiu.

Haldor permaneceu sozinho.

O silêncio parecia mais pesado.

Ele voltou a olhar o selo.

Lentamente, o mundo mudava.

E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu que o futuro não dependia mais de sua força… mas daquilo que despertava nas sombras de Anossovan.

Ainda tarde em Velkárion.

O grande salão do trono estava quase vazio, iluminado apenas pelo fogo baixo das tochas presas às colunas de mármore claro. O eco distante do vento contra as janelas altas era o único som além do leve crepitar das chamas.

No trono, o rei Alaric Sollriel mantinha-se reclinado. O cotovelo apoiado no braço entalhado da cadeira, o punho sustentando a lateral do rosto. Seus olhos vagavam pelo vazio do salão com uma expressão entre tédio e cálculo.

A pesada porta se abriu.

O conselheiro Marfin atravessou o salão com passos rápidos, mas contidos, como quem carrega notícias que não podem esperar.

— Senhor… a situação deixada por Thoran Aeskhár começa a nos sufocar. Se não houver mudança, nossos mantimentos não durarão mais que dois anos — talvez menos.

Alaric não se moveu.

— E…? — murmurou, sem alterar o tom.

— Somos a ponte comercial entre Sul, Norte e Oeste. Velkárion sempre controlou as rotas, sempre ditou os preços. Mas agora dependemos deles. Se não renegociarmos com Aeskhárion, ficaremos à mercê de suas exigências.

Marfin respirou fundo antes de continuar.

— Enquanto isso, Valdrenn cresce. Fortifica seus exércitos. Armazena suprimentos. Expande suas muralhas. Eles estão se preparando para algo… e nós estamos enfraquecendo.

O silêncio pesou entre as colunas.

— Fazer o quê? — respondeu Alaric, finalmente descruzando o olhar do vazio e fixando-o em Marfin. — Estamos nas mãos deles. Se ousarmos pressionar, nos ameaçarão outra vez.

— Então permitiremos que nos intimidem por mais quanto tempo? — a voz do conselheiro endureceu. — Velkárion não foi construída para se curvar.

Um leve sorriso surgiu no canto da boca do rei.

— Não se preocupe, Marfin. Um amigo prometeu ajudar-me com isso.

O conselheiro franziu a testa.

— Amigo? Quem, Majestade? O Conselho precisa estar informado. Servimos para aconselhá-lo… para traçar estratégias.

Alaric descruzou as pernas e endireitou-se no trono.

— Ele chegará em breve. E quando chegar, vocês o conhecerão. Até lá… fiquem quietos.

Marfin hesitou, mas inclinou a cabeça.

— Como desejar, meu senhor.

Passos leves ecoaram pelo salão antes que o conselheiro pudesse se retirar.

— Discutindo política outra vez?

A voz feminina quebrou a tensão como um fio de seda atravessando aço.

Alaric virou o rosto e seu semblante mudou — suavizou-se.

— Oh… meu bem. Acordou? Estávamos apenas jogando palavras ao vento. Nada que lhe interesse.

Marfin observou a mulher com discreta surpresa. Ela não era uma figura comum da corte. Havia algo diferente nela — postura, olhar, presença.

Ele murmurou quase para si:

— Quem é ela…?

A mulher ignorou o comentário.

— Voltei para avisar que seus filhos retornaram. Vi-os da janela do meu quarto, atravessando a Praça dos Cavalos.

O semblante do rei endureceu por um instante.

— Valerius e Caelum… já?

Ele soltou um suspiro irritado.

— Marfin. Vá recebê-los. E coloque-os em seus devidos lugares. Não quero tumulto.

O conselheiro aguardou a explicação.

— A população já não está satisfeita com a situação atual. Não precisamos de mais barulho.

— Sim, Majestade. Farei isso imediatamente.

Marfin inclinou-se mais uma vez e deixou o salão.

Quando as portas se fecharam, o rei Alaric Sollriel permaneceu em silêncio, os olhos fixos na chama de uma das tochas.

O fogo tremulava.

E, pela primeira vez naquela tarde, o tédio havia desaparecido de seu olhar.

O sol já descia lentamente quando Haldor chegou ao campo de treino atrás das casas de Lágnaetti. A luz dourada iluminava as montanhas ao longe, enquanto o som de aço contra madeira ecoava no ar.

Kaelen estava ali.

Sozinho.

Golpeava o boneco de treino com determinação, mesmo que os movimentos ainda fossem duros e desajeitados. O suor escorria pelo rosto do rapaz, e sua respiração era pesada.

Haldor observou por alguns instantes, em silêncio.

Orgulho.

E preocupação.

— Seu punho está muito alto — disse, aproximando-se. — Se fosse um inimigo real, já teria perdido o braço.

Kaelen virou-se rapidamente.

— Pai… eu achei que não viria hoje.

Haldor pegou uma espada de treino e a girou na mão.

— Eu prometi, não foi?

Eles começaram.

O som da madeira chocando-se ecoou pelo campo. Haldor atacava com precisão controlada, obrigando o filho a recuar, ajustar a postura, aprender.

Depois de alguns minutos, ele abaixou a espada.

— Pare.

Kaelen ofegava.

— Você melhorou.

O rapaz sorriu, orgulhoso.

Haldor respirou fundo, olhando o horizonte.

O silêncio entre eles durou alguns segundos.

— Meu filho… — disse, finalmente.

Kaelen percebeu o peso na voz do pai.

— Quero que você entenda uma coisa. Todos vocês precisam estar preparados para tudo. Não quero preocupá-los… mas também não posso fingir que nada está mudando.

O jovem franziu o cenho.

— O que quer dizer?

Haldor apoiou a espada no chão.

— A guerra terminou há cinco anos. Mas, nesses últimos tempos, Aeskhárion e Valdrenn estão cada vez mais tensos. A qualquer momento, podemos marchar novamente para outra guerra.

Kaelen assentiu devagar.

— Sei que Valdrenn tem o maior exército da história… mas Aeskhárion conquistou aliados fortes. Isso pode mudar tudo.

Ele ergueu o olhar.

— Mas… não é isso que está te preocupando, não é?

Haldor ficou em silêncio.

Depois negou com a cabeça.

— Não. Não é essa guerra.

O vento soprou pelos campos.

— Minha preocupação é outra. É algo que seu avô presenciou… e que me contou quando eu ainda era criança.

Kaelen ficou atento.

— Criaturas.

A palavra pareceu pesar no ar.

— Coisas que deveriam ter permanecido apenas nas histórias. Meu medo… é que tudo esteja prestes a se repetir.

O jovem absorveu aquilo, o rosto sério.

— Entendo… — disse por fim. — Mas, até lá, eu… Aelyra… mamãe… estaremos fortes para proteger Mira e Ryn.

Haldor o encarou por um momento.

Então sorriu.

— Mira é mais forte que você.

Kaelen arregalou os olhos.

— Pai!

Haldor riu pela primeira vez naquele dia.

— Então é melhor se apressar. Fortaleça esse punho… e esses joelhos. Porque, se o pior vier… não haverá espaço para fraqueza.

Ele ergueu a espada novamente.

— Vamos. De novo.

O som dos golpes voltou a ecoar.

Mas, no fundo, Haldor sabia:

Aquele treino não era apenas para guerra.

Era para sobreviver ao que estava por vir.

Do alto da pequena elevação atrás da casa, Aelyra observava.

O vento balançava suavemente seus cabelos enquanto seus olhos acompanhavam cada movimento no campo de treino. O som da madeira contra madeira ecoava ritmado — firme, constante.

Kaelen atacava com determinação.

Haldor defendia com precisão.

Mas não era o treino que chamava a atenção dela.

Era o silêncio entre os golpes.

Haldor estava diferente.

Ela conhecia aquele homem desde antes da guerra. Conhecia sua postura em batalha, seu modo de caminhar quando carregava peso demais nos ombros. E o que via agora não era apenas um pai ensinando o filho.

Era um homem preparando um sucessor.

Aelyra desceu lentamente a colina e aproximou-se sem que eles percebessem.

— Cotovelo mais fechado — disse Haldor. — Não exponha o flanco.

Kaelen ajustou a postura.

Ela cruzou os braços.

— Está treinando ele para enfrentar soldados… ou monstros?

Os dois viraram-se.

Kaelen sorriu.

— Aelyra!

Mas Haldor ficou imóvel por um breve segundo.

— Apenas o ensinando a sobreviver — respondeu ele.

Ela sustentou o olhar.

— Você não fala assim quando se trata apenas de política.

Kaelen percebeu a tensão.

— Vou buscar água — disse rapidamente, afastando-se.

O silêncio ficou entre os dois.

Aelyra caminhou até ficar frente a frente com Haldor.

— O que você não está me contando?

— Nada que precise preocupar você.

— Não minta para mim.

A voz dela não era acusatória. Era firme.

— Eu vi seu rosto saindo do conselho. Vi a forma como evitou olhar para mamãe no jantar. E vi você agora… treinando Kaelen como se o amanhã dependesse disso.

Haldor respirou fundo.

— Algo está mudando.

— Guerra?

— Talvez.

Ela estreitou os olhos.

— Não é isso.

O vento soprou mais forte, levantando poeira do campo.

Haldor desviou o olhar por um instante — erro pequeno, mas suficiente.

Aelyra percebeu.

— São as histórias do avô… não são?

Ele a encarou novamente.

Ela sempre foi mais perceptiva do que os outros.

— Você ouviu demais quando era criança.

— Você falava alto demais.

Por um momento, quase sorriram.

Mas o peso voltou.

— Se for o que você teme… — disse ela, mais baixa agora — … esconder não vai nos proteger.

Haldor aproximou-se.

— Eu não estou escondendo para proteger vocês da verdade.

— Então por quê?

Ele hesitou.

— Porque, se eu estiver certo… treinar não será o suficiente.

O silêncio entre eles tornou-se mais denso.

Aelyra segurou o braço dele.

— Então nos diga como nos preparar.

Haldor olhou para o campo onde Kaelen retornava com o cantil.

Depois olhou para o horizonte.

— Primeiro, precisamos ter certeza de que é real.

Ela soltou devagar.

— E se já for?

A pergunta ficou no ar.

Ao longe, um corvo atravessou o céu, grasnando.

Haldor não respondeu.

Mas, pela primeira vez, Aelyra teve certeza:

O pai não estava com medo de uma guerra.

Ele estava com medo do passado.
A noite caiu tranquila sobre Lágnaetti.

O vilarejo estava silencioso, exceto pelo som distante de uma porta fechando ou de um cão latindo ao longe. Dentro da casa de Haldor, a lareira queimava baixa, lançando sombras quentes pelas paredes de madeira.

Os filhos já dormiam.

Haldor permanecia sentado à mesa, os cotovelos apoiados, as mãos unidas diante do rosto. Não lia nada. Não escrevia. Apenas pensava.

A porta do quarto rangeu suavemente.

Sua esposa surgiu à luz do fogo, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. O olhar dela era sereno — mas atento.

— Você prometeu que viria se deitar cedo — disse ela, aproximando-se devagar.

Haldor ergueu os olhos.

— Eu sei.

Ela parou atrás dele e pousou as mãos em seus ombros.

— Quando foi a última vez que você ficou em silêncio por tanto tempo?

Ele soltou um leve suspiro.

— Antes da guerra.

Ela contornou a mesa e sentou-se diante dele.

— Então é isso? Guerra outra vez?

Haldor negou com a cabeça.

— Se fosse apenas guerra… eu dormiria tranquilo.

Ela franziu levemente o cenho.

— Então é o que seu pai lhe contava?

O silêncio confirmou antes que ele respondesse.

O fogo crepitou.

— Eu era criança — começou Haldor, com a voz mais baixa do que o habitual. — Achava que ele exagerava. Criaturas nas florestas. Sombras que se moviam sem corpo. Homens que desapareciam e voltavam… diferentes.

Ela não o interrompeu.

— Ele não era homem de invenções — continuou. — E eu vi o medo nos olhos dele quando falava.

— E agora você está com o mesmo olhar — disse ela, suavemente.

Haldor ficou imóvel.

— Eu sinto que algo está se movendo outra vez. Não nas fronteiras. Não nos reinos. Aqui.

Ele tocou o próprio peito.

Ela estendeu a mão e segurou a dele.

— Você enviou a carta, não foi?

Ele a encarou, surpreso por um instante.

— Como…?

— Eu conheço você, Haldor.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela.

— Quando você toma uma decisão difícil, seus ombros ficam mais retos. Como se carregasse o peso antes que ele chegue.

Ele relaxou levemente ao ouvir isso.

— Pedi soldados.

Ela assentiu.

— Quantos?

— Trezentos.

Ela respirou fundo.

— Então você acredita que é real.

— Eu acredito que pode ser.

O silêncio se instalou novamente, mas agora menos pesado.

Ela aproximou-se mais.

— Escute-me.

Ele levantou o olhar.

— Você enfrentou guerra. Fome. Perdas. E ainda está aqui. Se o passado quiser voltar… ele encontrará você mais forte do que antes.

Haldor segurou o rosto dela com cuidado.

— Não tenho medo de morrer.

— Eu sei.

— Tenho medo de não conseguir proteger vocês.

Ela encostou a testa na dele.

— Você não nos protege sozinho.

A chama da lareira iluminava os dois.

— Seja o que for que esteja voltando — disse ela — nós enfrentaremos juntos.

Haldor fechou os olhos por um momento.

Pela primeira vez naquele dia… a respiração dele desacelerou.

Lá fora, o vento atravessou os campos.

Mas dentro daquela casa, por um breve instante, havia paz.

A noite já havia tomado Velkárion quando as lanternas vermelhas começaram a brilhar nas ruas mais estreitas da cidade baixa. Música, risos e o cheiro forte de vinho e especiarias escapavam pelas janelas abertas de um dos estabelecimentos mais caros e discretos da capital.

Dentro, o ambiente era luxuoso. Cortinas de seda, tapetes importados e mesas de madeira escura. Nobres, mercadores e oficiais dividiam o espaço com mulheres de vestidos leves e olhares treinados para seduzir.

No centro de tudo, dois jovens dominavam a atenção.

Valerius Sollriel, o mais velho, estava reclinado em uma cadeira, com uma taça de vinho na mão. Seus cabelos claros caíam sobre o rosto, e o sorriso arrogante denunciava alguém acostumado a nunca ouvir “não”. Duas mulheres o cercavam, rindo de cada palavra que ele dizia.

— Velkárion ainda é o coração deste mundo — afirmava ele, erguendo a taça. — E eu serei o rei que fará todos se ajoelharem novamente.

Do outro lado da mesa, Caelum Sollriel observava tudo com um olhar mais frio. Diferente do irmão, não bebia muito. Seus olhos analisavam cada rosto, cada movimento. Havia cálculo em seu silêncio.

— Primeiro precisa aprender a ficar de pé sem ajuda — disse Caelum, seco.

Valerius riu alto.

— Inveja não combina com você, irmão.

Antes que a resposta viesse, a porta principal se abriu com força.

O som da música diminuiu. Alguns homens reconheceram a figura que entrava e desviaram o olhar.

Marfin.

O conselheiro caminhou com firmeza pelo salão, ignorando os olhares e as tentativas de distração das mulheres. Seu rosto carregava cansaço, mas também autoridade.

Ele parou diante dos príncipes.

— Senhores.

Valerius suspirou.

— Ah… Marfin. Veio se divertir?

— Não. Vim levá-los de volta.

O sorriso do príncipe desapareceu.

— Estamos ocupados.

— Seu pai ordenou.

O silêncio caiu sobre a mesa.

Caelum ergueu levemente o olhar.

— Algo aconteceu?

— A cidade está inquieta. A população já está à beira da revolta. Vocês estarem aqui não ajuda.

Valerius levantou-se de forma brusca.

— Eu sou o futuro rei. Posso estar onde quiser.

Marfin não recuou.

— O futuro rei precisa que o povo o respeite. Neste momento… eles não respeitam.

As palavras atingiram como lâminas.

Por um instante, Valerius pareceu prestes a reagir, mas Caelum colocou a mão em seu ombro.

— Chega.

Ele se levantou.

— Vamos.

Valerius o encarou, irritado.

— Desde quando você obedece ordens?

— Desde que percebi que alguém neste reino precisa pensar.

Caelum passou por Marfin sem esperar resposta.

Depois de alguns segundos, Valerius resmungou algo e o seguiu.

Enquanto saíam, os murmúrios retornaram ao salão.

Do lado de fora, o ar frio da noite os atingiu.

A cidade estava mais silenciosa do que deveria.

Caelum observou as ruas escuras.

— O que meu pai está escondendo, Marfin?

O conselheiro hesitou.

— Em breve, todos saberão.

O príncipe mais novo estreitou os olhos.

— Espero que sim… porque sinto que Velkárion está prestes a mudar.

Ao longe, o vento soprou entre as torres.

E, nas sombras da capital, algo parecia observar.

Enquanto isso, em Valverde, sob a lua…

Dentro da pequena casa, a luz trêmula das velas projetava sombras dançantes pelas paredes. Frascos de vidro refletiam tons dourados e azulados, ervas secas pendiam do teto, e um caldeirão liberava vapores suaves que carregavam o cheiro de resinas queimadas e folhas maceradas.

Magnes mexia lentamente uma poção cintilante, observando a reação com olhar clínico. Cada movimento era preciso; cada ingrediente, calculado. Aquilo não era capricho — era preparo.

Batidas ecoaram na porta.

Ela ergueu o olhar, já desconfiada. Limpou as mãos no avental e abriu.

Do lado de fora, sob a luz prateada da lua, estavam Cedric e Dart.

Cedric parecia ainda mais imponente à noite, a espada presa às costas, os traços firmes iluminados apenas pela lua. Dart, ao contrário, trazia o sorriso de sempre — largo demais para alguém que claramente estava prestes a se enfiar em problema.

— Espero que tenha algo interessante para dizer — disse Magnes.

— Temos — respondeu Cedric, direto. — Um cervo. No lago do norte.

— Um cervo não me tira de casa a essa hora.

Dart deu um passo à frente.

— Não é um cervo comum. É enorme. Gigante e negro como sombra. E atacou dois caçadores ontem à noite.

O olhar de Magnes mudou.

— Atacou?

— Investiu contra eles — confirmou Cedric. — Um deles está com a perna quebrada. Disse que os olhos da criatura… brilhavam.

Silêncio.

O vento noturno atravessou a rua vazia.

— E vocês decidiram ir atrás disso agora? — perguntou ela.

— Criaturas estranhas não esperam o amanhecer — disse Cedric.

Dart inclinou-se levemente na direção dela.

— Além disso… aventuras são melhores sob a lua. Mais íntimas. Mais perigosas. — Ele sorriu. — Mais românticas.

Magnes o encarou por alguns segundos.

— Se você tentar flertar comigo durante uma caçada, eu uso você como isca.

Cedric abafou uma risada.

Dart levou a mão ao peito.

— Você fere meu coração.

— Ele sobrevive. Infelizmente.

Ela então desviou o olhar para Cedric.

— Quanto estão pagando?

— Dois mil Lunáris se trouxermos viva — respondeu ele. — O conselho quer estudar a criatura.

Os olhos dela brilharam por um instante.

— Viva… então não podemos feri-la gravemente.

— Eu sabia que você viria — disse Dart.

— Eu viria mesmo se você não estivesse aqui.

— Frio.

Magnes entrou novamente na casa e voltou com uma bolsa de couro, prendendo-a ao cinto.

— Se os olhos brilham, pode haver corrupção mágica. Ou possessão. Precisamos de contenção, não confronto direto.

— E qual é o plano, estrategista? — perguntou Dart.

Ela passou por ele, já caminhando pela rua.

— Você sobe nas árvores e observa. Cedric segura a linha de frente. Eu preparo a contenção.

Dart piscou.

— E eu fico longe de você, imagino.

— Muito.

Cedric caminhou ao lado dela.

A vila estava silenciosa. Janelas fechadas. Lanternas apagadas. Apenas o som distante de cães e o farfalhar das folhas.

— Não precisava vir — disse ele, em tom baixo.

Magnes manteve os olhos à frente.

— Eu sei.

— Mesmo assim veio.

Ela finalmente o olhou.

— Porque você veio me chamar.

O silêncio que se seguiu disse mais do que qualquer palavra.

Dart quebrou o momento:

— Se vocês dois terminarem esse olhar intenso, podemos ir caçar o cervo sombrio?

Magnes suspirou.

— Se ele nos ouvir antes de chegarmos, a culpa é sua.

Os três deixaram as últimas casas para trás.

A floresta os recebeu com sombras densas e o cheiro úmido de terra fria. A lua filtrava-se entre as copas, desenhando caminhos prateados no chão.

O lago ficava adiante.

E algo os observava.

O clima já não era apenas de aventura.

Era de expectativa.

Amanhece em Lágnaetti, fortaleza e vila estratégica de fronteira. O vento gelado da manhã cortava pelas muralhas, trazendo consigo o aroma da madeira antiga e o sussurro distante de lobos uivando no alto da fortaleza.

Haldor Skarsson surgiu nas portas do salão do conselho. Sua presença impunha respeito: vestia uma armadura escura, cujo peitoral ostentava símbolos antigos da Casa Skarsson, gravados com precisão, representando força e liderança. Sobre os ombros, a pelagem de um lobo selvagem caía pesada, enquanto uma capa que se estendia até os pés completava a imponência de sua figura. Ele caminhava calmamente em direção à cadeira principal do conselho, cada passo ecoando no salão silencioso.

O salão estava repleto. Conselheiros, capitães de pelotão e o erudito aguardavam em suas posições, todos atentos à figura que dominava o ambiente. Haldor se sentou, cruzou os braços sobre o peitoral e lançou seu olhar firme sobre todos os presentes.

—Estamos aqui para a segunda e última parte do Julgamento do jovem Martins Alexxander, — disse ele, a voz grave cortando o silêncio, — assim como para discutir a veracidade — ou o mito — do Kael’Zuun.

Na assembleia estavam: Maerwen Hosterfoll, Capitã do 1ª Pelotão, Ossian conselheiro, Rothgar Erudito, Varyn Tagaer também conselheiro e por fim Eldric Capitão do 2ª Pelotão da patrulha e braço direito de Haldor Skarsson

Também estavam presentes Martins Alexxander e seu pai, Alexxanders Terell, cujas expressões refletiam tensão e expectativa.

Haldor fez uma pausa, olhando para cada rosto com atenção antes de declarar:

—Daremos início agora!

O vento continuava a uivar pelas muralhas de Lágnaetti, como se a própria fortaleza aguardasse em suspense o desenrolar do julgamento.



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