Capitulo 01: A Herança do Medo Antigo
O fim de tarde tombava lentamente sobre a floresta, tingindo as copas das árvores com tons de cobre queimado e sombras profundas. A luz do sol morria entre os galhos retorcidos, como se fosse devorada pela própria mata.

Cinco guardas da Guarda Real haviam interrompido a patrulha para descansar. O fogo crepitava baixo, e o cheiro pesado de ensopado de carne de cervo misturava-se ao odor úmido de folhas apodrecidas. O silêncio era quase reconfortante.

Por um breve momento, tudo parecia em ordem.

Então, um grito rasgou a floresta.

— Vocês ouviram isso? — murmurou Martins, já levando a mão ao punho da espada.

Os outros se entreolharam, confusos.

— O que foi, Martins? — zombou um deles, rindo. — Vai dizer que agora tem medo do escuro?

As risadas ecoaram abafadas entre as árvores. Martins era o mais novo entre eles, recém-alistado, e ainda carregava nos olhos o peso de quem nunca havia visto uma guerra de verdade.

— Não estou brincando — insistiu, a voz tensa. — Foi um pedido de socorro.

O grito veio novamente.

Mais alto.

Mais próximo.

E então, um som que não pertencia a nenhuma criatura viva: um rosnado profundo, gutural, semelhante ao de um urso… mas distorcido, quebrado, como se viesse de uma garganta morta.

O riso cessou.

Espadas foram sacadas quase ao mesmo tempo. Os guardas se levantaram, formando um semicírculo instintivo.

O som se aproximava.
Passos pesados.
Arrastados.
Como algo enorme sendo puxado pela própria sombra.

— Em posição! — gritou Martins.

Os arbustos à frente foram esmagados.

E então, um homem surgiu cambaleando.

Seu braço estava dilacerado, pendendo em tiras de carne. O sangue escorria em jorros escuros. Os olhos estavam arregalados, quase fora das órbitas.

— Socorro! — gritou, a voz quebrada. — Por Ūnohr… ele matou minha família!

— Fique onde está! — ordenou um guarda.

— Ele está vindo… — sussurrou o homem, tremendo. — Está logo atrás…

— O que está vindo?

O homem caiu de joelhos. Sua respiração falhava. Lentamente, ergueu o rosto ensanguentado.

— Aquilo que vive além da personificação do mal…
Das profundezas do coração de Tronvix…
Um nome que não deveria ser dito…

Ele chorou.

— um Kael’Zuun.

O mundo pareceu parar.

O fogo estalou.

O vento cessou.

A floresta ficou morta.

Então, algo emergiu das sombras.

Era alto demais para ser humano.
Mais de dois metros e meio.
A forma era perfeita… e monstruosa ao mesmo tempo.

A pele cinza-escura parecia pedra fria. Veias negras brilhavam sob a carne. Seus olhos ardiam com luz negra espectral, e a presença esmagava o ar ao redor.

Antes que qualquer um reagisse, um braço colossal surgiu.

Num único movimento, a criatura arrancou a cabeça do homem.

O corpo caiu, tremendo.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

— Por Ūnohr… — sussurrou um dos guardas.

A criatura avançou.

O chão parecia ceder sob seus passos.

— CORRAM!

O inferno começou.

Um dos guardas atacou, gritando. A espada atingiu o peito da criatura… e parou, como se tivesse golpeado rocha.

O Kael’Zuun ergueu a mão.

As sombras responderam como criaturas vivas. As sombras não eram parte deles. Não havia magia, não havia energia obscura. Apenas força, resistência… e algo profundamente errado em sua existência.

O soldado que havia atacado mal teve tempo de erguer o escudo novamente. O Kael’Zuun avançou sem pressa, pesado e inevitável. O golpe veio direto, bruto, sem técnica refinada — apenas poder. A lâmina atravessou o escudo, a armadura e o corpo como se fossem frágeis. O homem tentou gritar, mas o ar escapou de seus pulmões junto com o sangue. Seus olhos se apagaram enquanto o corpo desabava, inerte, quebrado demais até para reagir.

Outro guarda recuou, tomado pelo pânico. Seus pés escorregavam na terra úmida enquanto tentava fugir. Ele ousou olhar para trás.

Erro.

O Kael’Zuun já estava ali.

Não houve corrida visível, nenhum movimento claro. Apenas a certeza de que a criatura havia cruzado a distância em poucos passos silenciosos e impossivelmente rápidos. O guarda ergueu a espada, tremendo.

O impacto veio primeiro.

O som foi seco, pesado, como o de ossos partindo dentro de um tronco. O golpe dividiu o homem antes que sua mente entendesse o que acontecia. Metade do corpo caiu para um lado, a outra para o outro. O chão foi manchado de vermelho.

O Kael’Zuun permaneceu imóvel por um instante.

Sem pressa. Sem emoção. Apenas esperando o próximo.
Então, a criatura parou.

Seus olhos se voltaram para Martins. Ele congelou.

O terror dominou seus membros. O mundo reduziu-se àqueles olhos espectrais e à presença esmagadora que fazia o ar pesar em seus pulmões.

O Kael’Zuun inclinou levemente a cabeça.

E falou. "vir hansuz tresisur laguz'z tresisur dagaz zuukla geabo tresisur ....A voz não era uma voz. Era um eco profundo, antigo, como se viesse de uma tumba infinita. As palavras eram formadas por sílabas ásperas, uma língua morta, anterior aos reinos dos homens.

continuou "hansuz tresisur laguz'z haudhiz nikiro nazer tresisur hansuz altgiz degazer vaezy hansuz tresisur haudhiz yhurisaz hansuz dagaz boko haudhiz hansuz nikiro nazer altgiz" (Vá e lembre á eles que ainda estamos aqui)

Martins não compreendia, não reconhecia nenhum significado… mas algo atravessou sua mente como uma lâmina fria.

A intenção.

A ordem.

Fuja.

O sentido gravou-se em sua consciência com uma clareza aterradora. Não havia misericórdia naquilo. Não havia pressa. Apenas vontade.

Naquele instante, Martins entendeu o horror maior a criatura o estava deixando viver.

Queria que ele fugisse.

Queria que ele levasse o medo.

Algo dentro dele gritou.

Sobreviva.

O corpo voltou a obedecer. O ar entrou violentamente em seus pulmões. Ele virou-se e correu.

A floresta parecia fechar-se à sua volta. Galhos rasgavam sua pele, raízes o faziam tropeçar. O cheiro de sangue e terra enchia seus sentidos. O coração batia como um tambor de guerra.

Mas atrás dele não havia perseguição.

Nenhum passo.

Nenhum rosnado.

Apenas o peso invisível daquele olhar, queimando suas costas.

Martins caiu, levantou-se, caiu novamente, e continuou. Os gritos finais de seus companheiros ainda ecoavam em sua mente.

Depois… silêncio.

Mas o silêncio era pior.

Ele correu até o amanhecer. Quando finalmente emergiu da mata, o sol já surgia, mas não trazia conforto. Seu corpo tremia, coberto de sangue e terra.

Os aldeões o viram cair próximo ao portão.

Guardas correram.

— Abram caminho! Ele está vivo!

Martins foi amparado antes de tocar o chão. Suas mãos tremiam incontrolavelmente. O rosto parecia envelhecido anos.

Seus lábios se moveram.

— N-não era um urso…

Os olhos se agitaram.

— Ele… não sangrava… a floresta… se calou quando ele passou…

O silêncio caiu sobre todos.

— Nós… não devíamos ter ouvido o nome…

Ele arfou.

— Era um servo dele…

Foi então que Haldor Skarsson avançou.

O líder da aldeia e fortaleza, um homem marcado por guerras antigas, ajoelhou-se diante do jovem de postura rígida e olhar marcado por guerras antigas, ele observou o soldado por um instante — não com piedade, mas com a atenção cautelosa de alguém que reconhecia os sinais de algo muito maior do que um simples ataque. 

— Levem-no — ordenou, a voz grave e firme. — Cuidem dos ferimentos. Agora.

Dois guardas obedeceram de imediato, erguendo o novato e conduzindo-o à enfermaria improvisada.

Haldor voltou-se para os demais, o semblante endurecido.

— Iremos interrogá-lo mais tarde. — Seu olhar percorreu a multidão silenciosa. — E não acreditem em tudo o que se diz por aí. O medo se espalha mais rápido do que a verdade.

Com um gesto curto, chamou um mensageiro.

— Avisem os conselheiros. Quero todos imediatamente no salão do conselho.

O mensageiro partiu em disparada.

O sol já havia subido sobre Lágnaetti, mas a sombra do que fora dito ainda pairava no ar. A floresta permanecia distante e silenciosa, como se observasse.

Horas depois, a tenda de Haldor estava quieta.

O líder permanecia sentado, inclinado sobre a mesa, os mapas abertos diante dele. Seu olhar estava distante, preso à linha escura das árvores. A mão, marcada por cicatrizes, apertava o copo de hidromel sem que ele sequer percebesse.

— Você vai quebrar o copo desse jeito.

A voz suave, porém firme, fez com que ele erguesse o olhar.

Aelyra estava à entrada da tenda, os cabelos claros iluminados pela luz da manhã. Ela observava o marido com aquele olhar que sempre parecia enxergar além das palavras.

— Eu não estou preocupado — respondeu Haldor.

Ela arqueou levemente a sobrancelha.

— Claro que não.

Por um instante, o silêncio pairou… até que passos rápidos interromperam o momento.

— Pai!

Ryn invadiu a tenda como uma tempestade pequena e descontrolada. Logo atrás, Mira entrou com mais calma, embora seus olhos também carregassem curiosidade.

— Kaelen disse que vai me ensinar a usar a espada hoje! — anunciou o menino, com um sorriso largo. — E ele prometeu que não vai pegar leve!

— Isso não é verdade — disse Kaelen, surgindo atrás deles. — Eu disse que talvez não pegasse leve.

— Você disse sim!

— Não disse.

— Disse!

Mira suspirou.

— Ele disse.

Kaelen lançou-lhe um olhar indignado.

— Você não está ajudando.

Aelyra cruzou os braços, escondendo um sorriso.

— Treinar seu irmão até ele não conseguir segurar a espada não parece uma boa ideia.

— Ele precisa aprender — respondeu Kaelen, tentando parecer sério. — Um Skarsson não pode fugir de um urso.

Ryn cruzou os braços.

— Eu não fugi.

— Você subiu numa árvore.

— Estratégia!

Haldor soltou um som baixo, quase um riso. Todos se viraram, surpresos. Não era comum vê-lo relaxar.

— Estratégia… — repetiu ele, apoiando-se na cadeira. — Seu avô Skari também chamava isso de estratégia quando fugia da sua avó.

As crianças arregalaram os olhos.

— O avô fugia? — perguntou Mira.

— Muitas vezes — respondeu Haldor, sério. — Ela era mais assustadora que qualquer criatura da floresta.

Aelyra o encarou.

— Continue falando e você vai descobrir como isso é verdade.

Ryn riu alto. Kaelen também não conseguiu conter o sorriso.

O peso da manhã pareceu, por um instante, desaparecer.

Aelyra aproximou-se e colocou a mão sobre o ombro de Haldor.

— Você não precisa carregar tudo sozinho.

Ele respirou fundo. O olhar endurecido suavizou.

— Eu sei.

Kaelen observava os pais em silêncio, percebendo algo que nunca havia entendido completamente: força não era apenas vencer batalhas.

— Então… — disse Ryn, impaciente. — Posso ou não treinar?

Haldor levantou-se.

— Eu vou com vocês.

— Sério? — Kaelen pareceu surpreso.

— Sim. — O pai pegou a espada encostada na parede. — Quero ver se você está pronto para ensinar alguém.

O sorriso confiante de Kaelen desapareceu.

— Eu… estou.

— Veremos.

Mira riu.

— Isso vai ser interessante.

Aelyra observou enquanto eles saíam da tenda. Pela primeira vez desde o amanhecer, o som de risos ecoou pelo acampamento.

Mas, antes de sair, Haldor olhou mais uma vez para a floresta distante.

O medo ainda estava lá.

Só que agora… ele lembrava pelo que lutava.

O campo de treino estava cheio de energia. O som de madeira contra madeira ecoava pelo ar frio da manhã. Kaelen avançava com confiança, enquanto Ryn tentava acompanhar seus movimentos, mesmo com a espada de treino parecendo pesada demais para seus braços.

— Não levante tanto o ombro — corrigiu Kaelen. — Senão qualquer um vai ver seu ataque.

— Eu sei! — respondeu Ryn, ofegante. — Eu só… estou fingindo.

— Fingindo o quê?

— Que sou lento. Para surpreender.

Mira, sentada em uma pedra próxima, soltou uma risada baixa.

Haldor observava os filhos com os braços cruzados, a expressão firme, mas os olhos mais suaves do que de costume.

— De novo — ordenou ele.

Ryn avançou com um grito exagerado. Kaelen desviou com facilidade, mas dessa vez o garoto conseguiu tocar seu braço.

— Eu acertei!

— Por sorte.

— Foi estratégia!

Antes que Kaelen respondesse, passos apressados ecoaram pelo terreno.

Dois guardas da aldeia se aproximavam. Seus rostos estavam tensos.

Haldor percebeu imediatamente. O peso voltou ao seu olhar.

— Senhor… — disse um deles, inclinando a cabeça. — Os conselheiros já estão reunidos. Estão esperando pelo interrogatório.

O silêncio caiu.

Kaelen abaixou a espada.

— Já?

— Sim. — O guarda hesitou. — O jovem acordou. Ele está… perturbado.

Haldor assentiu lentamente.

Por um momento, ele permaneceu ali, olhando os filhos. O mundo parecia querer arrancar aqueles instantes de paz.

Ele respirou fundo.

— Kaelen.

— Sim, pai.

— Continue o treino. Ensine seu irmão. E não pegue leve.

Kaelen assentiu, sério.

Haldor então se aproximou.

— Eu sinto muito — disse, colocando a mão sobre o ombro do filho. — Prometi treinar com você.

Kaelen tentou esconder a decepção.

— Eu entendo.

— Depois do pôr do sol — continuou Haldor. — Só nós dois.

Os olhos do jovem brilharam.

— Eu vou esperar.

Haldor virou-se para Ryn.

— E você… nada de subir em árvores.

— Isso não foi fuga!

— Foi.

Mira sorriu.

Aelyra havia se aproximado sem que ele percebesse. Ela observava tudo em silêncio.

Haldor caminhou até ela. Por um instante, a dureza desapareceu.

— Preciso ir.

— Eu sei.

Ele segurou o rosto dela com cuidado e a beijou na testa.

— Cuide deles.

— Sempre.

Ela tocou a mão dele.

— E você… não enfrente isso sozinho.

Haldor assentiu.

Então se afastou, voltando a ser o líder.

Os guardas o acompanharam enquanto ele caminhava em direção à grande Salão do conselho. À medida que se aproximava, o clima mudava. O murmúrio cessava. Olhares preocupados seguiam seus passos.

O vento trouxe o cheiro da floresta.

A entrada da Salão estava aberta. Lá dentro, as vozes cessaram assim que ele surgiu.

Os conselheiros já estavam reunidos.

Mapas espalhados, rostos tensos, velas acesas apesar da luz do dia.

— Haldor — disse o ancião mais velho. — Estávamos esperando.

Ele assentiu.

— Comecemos.

Mas antes que se sentasse, ele parou.

— Quero todos atentos. O que vamos ouvir hoje… pode mudar tudo.

O silêncio ficou pesado.

Do lado de fora, um grito ecoou.

Um dos guardas apareceu à entrada, pálido.

— Senhor… ele não para de falar.

Haldor estreitou os olhos.

— O quê?

— Ele diz que… que o servo sabe que ele sobreviveu.

O ar dentro da Salão pareceu congelar.

Haldor virou-se imediatamente.

— Levem-me até ele.

O guarda assentiu.

Enquanto caminhavam em direção ao salão do conselho, os gritos do jovem tornavam-se cada vez mais altos.

Ao cruzarem o limiar, depararam-se com dois homens lutando para manter o jovem preso à cadeira. Ele era um feixe de espasmos e terror; seus olhos, esbugalhados, pareciam querer saltar das órbitas enquanto o corpo tremia em uma agonia incontrolável.

— Ele está aqui! — gritava o rapaz. — Ele está aqui!

Haldor entrou.

O jovem o viu… e congelou.

O silêncio caiu novamente.

Ele começou a chorar.

— Ele está aqui! — gritava o rapaz. — Ele está aqui!

Haldor entrou na sala

O jovem o viu… e congelou.

O silêncio caiu sobre o lugar como uma lâmina. Os tremores cessaram por um instante, como se a presença do líder fosse suficiente para conter o pânico.

Então ele começou a chorar.

— Senhor… — a voz falhou. — Peço perdão pela minha falha. Eu sei que não deveria ter voltado com vida. Meus companheiros… estão mortos.

Haldor ergueu a mão, interrompendo-o com firmeza.

— Muito pelo contrário. Precisávamos que alguém voltasse para relatar o que aconteceu.

Ele deu um passo à frente, o olhar firme, quase implacável.

— Martins Alexxander. Dezoito anos. Filho dos Alexxanders Terell do Lago Sul. Primeira expedição, correto?

O rapaz assentiu, ainda tremendo.

— Quero saber tudo. — A voz de Haldor era calma, controlada. — O que realmente atacou o esquadrão de patrulha?

Martins levantou os olhos e os fixou no dele. Havia medo, mas também convicção.

— Eu sei o que vi, senhor. Por mais que os conselheiros digam que eles estão extintos há muitos anos… eu vi com meus próprios olhos.

Ele engoliu em seco.

— Era uma criatura… um… Kael’Zuun, senhor.

Um murmúrio percorreu o local. Guardas trocaram olhares. Os conselheiros e eruditos começaram a falar entre si.

— Mentira — disse Ossian, avançando. — Não é possível. Os Kael’Zuun foram extintos há séculos.

As vozes aumentaram, criando um ruído crescente.

Haldor ergueu a voz.

— Silêncio.

O efeito foi imediato.

Mesmo assim, Ossian insistiu:

— Senhor, o que ele diz é um absurdo—

— Ossian. — Haldor o interrompeu sem sequer olhá-lo. — Escutaremos toda a história antes de qualquer julgamento.

O conselheiro recuou, contrariado.

Haldor voltou-se para o jovem.

— Continue, Martin.

— Obrigado, senhor…

Haldor assentiu.

— Descreva essa criatura.

Martins respirou fundo, como se retornasse àquele momento.

— Descreva o que você viu — disse Haldor.

Martins demorou alguns segundos para responder. Seus olhos pareciam presos à lembrança.

— Primeiro… veio o som. Como se algo pesado tivesse pisado na terra molhada. Um impacto surdo... A floresta inteira ficou em silêncio.

Ele engoliu seco.

— Então… algo saiu das sombras.

Martins apertou as mãos sobre a mesa.

— No começo eu não consegui entender o que estava olhando. Era como uma forma feita da própria escuridão da floresta. Um corpo grande… largo… coberto por algo que parecia fumaça, raízes ou carne retorcida se movendo lentamente.

Ele respirou fundo.

— A criatura era alta… talvez perto de um metro e noventa… mas parecia muito maior. A presença dela… fazia o espaço ao redor parecer pequeno.

Martins fechou os olhos por um instante.

— O corpo era negro. Não um negro comum… mas o tipo de escuridão que parece engolir a luz. A pele parecia irregular, como se fosse formada por camadas de sombras presas à carne.

Ele passou a mão trêmula pelo rosto.

— A cabeça… era a pior parte.

O silêncio na sala ficou pesado.

— Não havia rosto. Nenhuma boca. Nenhum nariz. Nenhuma expressão. Apenas uma forma escura onde um rosto deveria existir… lisa em alguns pontos, retorcida em outros.

Ele hesitou antes de continuar.

— Mas havia duas luzes… como olhos brilhando dentro daquela escuridão. Não pareciam olhos de verdade… mais como dois pontos de luz fria dentro de um vazio.

Martins respirou fundo.

— E quando ele saiu completamente das sombras… parecia que a própria floresta estava recuando dele. Como se até a noite tivesse medo.

Ele abriu os olhos devagar.

— Foi aí que eu entendi… aquilo não era um homem.

A voz dele caiu para um sussurro.

— Era um Kael'zuun.

Haldor inclinou-se.

— Se era tão poderoso… como você escapou?

O jovem hesitou.

— Ele… me deixou ir.

Um novo murmúrio surgiu.

— Ele falou comigo.

Alguns conselheiros riram.

— Um Kael’Zuun falar? — zombou um deles. — E o que ele disse? “Pode ir, amigo”?

A expressão de Martin mudou. A raiva substituiu o medo.

— Ele falou, sim!

O tom foi tão intenso que todos se calaram.

Haldor manteve o olhar fixo.

— Em nossa língua?

— Não, senhor. Era diferente. Antigo. Eu não entendi nenhuma palavra.

— Então como sabe que não queria matá-lo?

Martin hesitou.

— Eu… senti. Ele não queria me matar. Queria que eu fugisse.

— Fugisse para quê?

O jovem respirou fundo.

— Eu não sei. Mas… parecia importante. Como se ele quisesse que alguém soubesse.

Haldor ficou em silêncio por um instante.

— Você conseguiu entender a língua?

— Não, senhor. Nunca ouvi algo parecido.

Ele apertou os olhos.

— Mas eu sabia… que ele queria que eu voltasse. Não sei para qual propósito.
Um vento frio atravessou as frestas das antigas janelas de madeira, fazendo as chamas das tochas e das velas vacilarem pelo salão de pedra.

As sombras dançaram nas paredes, alongadas e inquietas, como se tivessem vida própria.

Haldor permaneceu imóvel.

Seu olhar ainda estava fixo em Martins, mas seus pensamentos já caminhavam além daquela casa, atravessando montanhas, florestas e tempos esquecidos. O peso das histórias antigas, que ouvira desde a infância, parecia agora pressionar seus ombros com força renovada.

Algo muito antigo havia despertado.

E, pela primeira vez em muitos anos, a possibilidade de que as lendas fossem verdadeiras parecia mais real… e mais perigosa… do que o próprio medo.

O silêncio ainda pesava sobre a sala do conselho. As chamas das tochas e velas tremulavam, lançando sombras inquietas sobre os rostos dos presentes.

Haldor permaneceu imóvel por alguns instantes, como se medisse cada palavra antes de pronunciá-la.

Por fim, endireitou-se.

— Chega por hoje.

Os conselheiros o olharam, surpresos.

— O que ouvimos não pode ser tratado com pressa nem com medo. — Seu olhar percorreu todos, um a um. — Precisamos refletir. Avaliar. Separar verdade de superstição.

Ossian abriu a boca, mas Haldor ergueu a mão.

— Este conselho está encerrado.

Ele voltou-se para os guardas.

— Martin Alexxander ficará sob custódia. Quero que seja mantido em observação constante. Nenhum contato externo. Ninguém entra, ninguém sai sem minha autorização.

— Sim, senhor — responderam os guardas.

— Mais tarde nos reuniremos novamente. — A voz de Haldor tornou-se ainda mais grave. — Discutiremos seu julgamento… e a possibilidade da existência dos Kael’Zuun.

Um murmúrio percorreu o salão.

Haldor ignorou.

— Até lá, ninguém espalha rumores. O medo é nosso maior inimigo.

Sem esperar resposta, ele virou-se e saiu. As portas de madeira se fecharam com um som pesado.

A inquietação permaneceu.

A algumas horas de viagem ao sul, longe das tensões que cresciam no norte, o mundo ainda parecia inteiro.

O pequeno vilarejo vivia em sua própria paz. O som de risadas ecoava pelas ruas de terra, misturado ao bater de portas, ao tilintar de panelas e ao canto preguiçoso das galinhas que fugiam de pés descalços. O cheiro de pão assando e ervas secas preenchia o ar, espalhando uma sensação de normalidade rara naquelas terras.

No centro da praça simples, crianças corriam em círculos, levantando nuvens de poeira dourada sob a luz do sol. Algumas fingiam enfrentar monstros invisíveis, usando gravetos como espadas. Outras erguiam escudos improvisados com tampas de madeira.

Magnes movia-se entre elas com leveza controlada, desviando dos ataques com precisão exagerada, como quem mede força até mesmo em uma brincadeira. Em um gesto teatral, recuou, levou a mão ao peito e caiu de joelhos.

— Não vale… vocês são muitos — disse, com um sorriso contido.

As crianças explodiram em alegria.

— A feiticeira vai cair! — gritou uma menina, erguendo o graveto.

— Nunca — respondeu Magnes, levantando a mão como se invocasse um feitiço. A postura mudou de imediato. A voz ganhou gravidade, e por um instante havia algo real ali. — Agora vocês vão sentir o poder da grande maga de…

Ela parou, estreitando os olhos.

— De quê? — perguntou um menino, intrigado.

Magnes inclinou a cabeça, como se avaliasse a pergunta com seriedade.

— Ainda estou decidindo.

As gargalhadas vieram de novo.

A luz do sol tocava seus cabelos ruivos intensos, quase vermelho-escuro, que brilhavam como brasas vivas sempre que se moviam. Havia algo vibrante e indomável naquela cor. Algo que fazia até os mais velhos do vilarejo observarem a jovem com curiosidade… e respeito silencioso. Muitos lembravam das histórias que vinham das estradas. De criaturas abatidas. De viajantes protegidos. De combates vencidos.

— Nós vencemos! — gritou um garoto, saltando sobre um banco.

— Só porque usei a magia errada — respondeu Magnes, apontando para ele.

— Você não tem magia!

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Tenho. Só não uso quando não é necessário.

— Por quê?

Magnes se inclinou, aproximando o rosto, mas sua expressão já não era apenas brincalhona.

— Porque magia não é espetáculo. É responsabilidade.

As crianças ficaram em silêncio por um instante.

— Mas… você já lutou de verdade? — perguntou uma menina, mais baixa.

O sorriso de Magnes suavizou.

— Mais vezes do que gostaria.

O clima ficou pesado por um breve segundo. Então ela piscou.

— E sobrevivi a todas.

O alívio veio com novas risadas.

Foi então que uma voz arrastada ecoou pela rua.

— Eiii… crianças…

Um homem cambaleava pela estrada, tropeçando nas próprias botas. O cheiro forte de cerveja chegava antes dele.

— Fiquem longe dessa bruxa! — apontou para Magnes com falsa gravidade. — Ela vai transformar vocês em sapos! Hahaha!

As crianças hesitaram… e então correram, gritando e rindo.

— Bruxa! Bruxa!

— Eu não quero virar sapo!

— Eu quero! — disse um, caindo na gargalhada.

Magnes cruzou os braços.

— Não acredito que você está bêbado de novo, Felliph.

Ele abriu os braços.

— Acabei de sair da taverna! A melhor cerveja de Valdrenn! Uma obra divina!

— A última vez que você disse isso, dormiu dentro do estábulo.

— Foi estratégico. Muito confortável.

Ela revirou os olhos.

— A única pessoa que vou transformar em sapo é você, seu gorducho bêbado.

Felliph riu alto.

— Como sempre, com a língua mais afiada que qualquer espada.

Magnes caminhou até o varal ao lado de sua casa. O tecido ainda estava quente do sol. Ela dobrava cada peça com cuidado, com a mesma disciplina que usava ao preparar feitiços.

— Um dia sua esposa vai me agradecer por cuidar de você.

— Ela já agradece! Diz que sou mais fácil de aguentar quando você está por perto.

— Mentira.

— Verdade. Você assusta os vizinhos.

Um leve sorriso surgiu.

— Ótimo.

Felliph seguiu pela estrada, assobiando uma canção torta.

O vilarejo voltou à sua rotina.

Mas, quando ficou sozinha, o sorriso de Magnes desapareceu.

O vento havia mudado.

Ela parou, segurando uma camisa entre as mãos.

O ar parecia mais frio… pesado. Não era apenas o clima. Era a sensação que antecedia batalhas. Aquela pressão invisível que surgia antes do sangue e do fogo.

Magnes ergueu o olhar.

O céu, antes claro, agora era lentamente tomado por nuvens escuras que surgiam rápido demais, como se fossem empurradas por uma força invisível. A luz diminuía, e as sombras se alongavam de forma antinatural.

Os pássaros haviam silenciado.

Até o som do vilarejo parecia distante.

Um aperto estranho surgiu em seu peito.

Algo estava errado.

Muito errado.

O destino de Anossovan começava a se mover.

Um arrepio percorreu sua pele.

— Estranho… — murmurou.

Ela olhou para o horizonte, os olhos atentos, como em campo de batalha.

— Que sensação é essa?

E, pela primeira vez em muitos anos, Magnes sentiu medo sem saber o motivo.

Do outro lado do mapa de Anossovan, onde as montanhas geladas encontravam o mar sombrio e os fiordes cortavam a terra como cicatrizes antigas, erguia-se o poderoso reino de Aeskhárion. Suas cidades eram feitas de pedra negra, erguidas para resistir ao tempo, às tempestades e às guerras. Torres altas dominavam o horizonte, desafiando o vento cortante que nunca cessava.

Na capital, o frio era constante, mas a vida pulsava com dureza.

Dentro de uma taverna de pedra, aquecida por tochas e grandes lareiras, uma briga acabara de explodir. O lugar estava cheio de mercenários, marinheiros e guerreiros do Norte. Mesas viradas, copos quebrados espalhados pelo chão, e o cheiro de cerveja forte misturava-se ao sangue.

No centro do caos, um jovem lutava contra três homens maiores.

Mesmo após ser arremessado contra a pesada porta de madeira, ele continuava sorrindo.

— Eu serei um herói! — gritou, ofegante, o vapor de sua respiração visível no ar gelado. — E meu nome será cantado!

Um dos homens o empurrou para fora com brutalidade.

— Até lá, fique longe daqui, seu moleque!

O jovem caiu na rua de pedra coberta por neve suja, rolando até parar próximo à sarjeta congelada. As risadas ecoaram atrás dele, abafadas pelo vento.

Ele se levantou, ignorando a dor.

— Seus ratos! — respondeu, apontando para a porta. — Não virei mais aqui! Vocês vão implorar para que eu retorne!

A porta começou a fechar.

— Por Ūnohr e Ithrael, eu juro!

O homem que a fechava parou por um instante, encarando-o com irritação.

— Cuidado, garoto. Não faça promessas aos deuses por algo que não pode cumprir.

A porta bateu com força.

O silêncio da rua retornou, quebrado apenas pelo uivo distante do vento entre as torres.

O jovem limpou a neve das roupas, respirando fundo. Seu nome era Yasaf.

Ele ergueu o olhar.

Acima da cidade, sobre muralhas cobertas de gelo e bandeiras endurecidas pelo frio, erguia-se o imenso castelo do rei Vaelrik Skjorn III, dominando o horizonte como uma montanha de pedra, ferro e história.

Os olhos de Yasaf brilharam.

Por um momento, parecia que ele caminharia naquela direção.

Mas não.

Sem dizer mais nada, virou-se rumo ao porto, onde os navios do Norte repousavam entre as águas escuras dos fiordes.

O vento do mar soprou contra seu rosto, trazendo o cheiro de sal, gelo e promessas.

E, embora ninguém soubesse, seus passos o levariam diretamente ao caminho das lendas que estavam prestes a despertar.



Lord of the Ages: Storm of the First Light 2026 © Lord of the Ages - Criado por Jose Rodolfo F F Júnior