
No princípio de tudo, existia apenas Ûnohr, o Criador Único, o Transcendente além do tempo, da matéria e da compreensão. De sua própria essência primordial, ele gerou os Thürvir, não como deuses, mas como entidades celestiais, mensageiros e guardiões de sua vontade.
Cada Thürvir carregava uma centelha direta do Criador, sendo seus olhos, sua voz e suas mãos na obra da criação. Eles não possuíam autonomia absoluta, pois sua existência estava ligada à harmonia e à ordem estabelecidas por Ûnohr.
Por ordem do Criador, os Thürvir foram enviados a Anossovan, a Terra recém-nascida. Ali, moldaram continentes, ergueram montanhas, abriram mares e sopraram vida nas primeiras criaturas. Por fim, criaram a humanidade, não como servos, mas como herdeiros da criação.
Sob a vigilância dessas entidades celestes, os homens prosperaram. A ordem reinou soberana, e a paz floresceu por eras incontáveis, como um reflexo eterno da vontade de Unohr.
Contudo, mesmo entre os seres mais puros, a ruptura pode nascer.
Nas profundezas da própria essência de um dos Thürvir, o caos não surgiu como algo externo. Cada Thürvir é uma extensão direta de Ūnohr, fragmentos vivos de sua vontade e de seu poder. Ainda assim, Tronvix manifestou algo que jamais deveria existir: uma dissonância dentro da própria unidade.
Desde o princípio, ele não refletia o equilíbrio de seus irmãos. Era instável, impaciente e impulsivo. Enquanto os demais Thürvir agiam em perfeita harmonia com o propósito de Ūnohr, Tronvix demonstrava inquietação. Havia nele um anseio silencioso, uma tensão crescente, como se sua própria essência resistisse ao fluxo absoluto da unidade.
Essa falha não veio de influências externas, nem de forças ocultas, mas de sua própria consciência emergente. Tronvix começou a questionar sua natureza: por que deveria existir apenas como extensão? Por que não poderia possuir vontade própria? Para ele, ser apenas um aspecto do Criador passou a parecer uma limitação, quase uma prisão.
Com o tempo, esse pensamento se transformou em desejo. Tronvix passou a almejar individualidade, autonomia e domínio. Ele não queria apenas servir à criação — queria moldá-la segundo sua própria visão. Acreditava que, ao romper o vínculo com Ūnohr, poderia se tornar algo novo, algo superior, livre da unidade.
Assim, a rebelião de Tronvix não foi apenas contra seus irmãos, mas contra a própria ordem da existência. Ao tentar separar-se da fonte que o formava, ele gerou a primeira ruptura na harmonia universal. Pois diferente de seus irmãos, Tronvix passou a desejar não servir, mas governar. Dessa dissonância nasceu o caos, e sua escolha marcou o início de uma guerra cósmica que redefiniria o destino de Anossovan e da própria criação.
Na noite em que sua rebelião se revelou, os céus de Anossovan se rasgaram em fendas de fogo e trevas. Tronvix ergueu-se contra seus irmãos, rompendo sua ligação com Ūnohr e corrompendo sua própria essência celestial. Sua luz transformou-se em sombra viva.
Montanhas ruíram, oceanos recuaram e o solo da Terra dos Homens bebeu o primeiro sangue das entidades celestiais.
Tronvix criou um exército profano: mortos-vivos, criaturas corrompidas e dragões reanimados pela energia sombria. Ele não criava — ele distorcia. Onde passava, a vida apodrecia.
Entre os mortais, um homem se destacou.
Nazkaar, um general humano de mente brilhante, foi corrompido pela vontade de Tronvix e tornou-se o primeiro mago de Anossovan. Sob sua liderança, as forças sombrias deixaram de ser apenas caos e passaram a agir com estratégia, disciplina e crueldade calculada. Foi ele quem organizou os exércitos de Tronvix na Terra dos Homens, erguendo legiões e forjando a guerra que devastaria reinos inteiros.
Sob o comando de Nazkaar, fortalezas caíram, cidades foram reduzidas a cinzas e os exércitos humanos conheceram o verdadeiro terror.
Os Thürvir responderam.
Legiões celestes desceram dos céus: hostes de fogo puro, guerreiros de gelo primordial, titãs da terra e espíritos do vento. O próprio mundo quase se partiu diante do confronto.
Enquanto isso, a humanidade, frágil e impotente, assistia ao fim de sua era dourada.
No auge da guerra, quando Tronvix parecia invencível e as estratégias de Nazkaar fortaleciam o avanço das trevas, Vaelthira, a Senhora dos Relâmpagos e uma das mais fiéis a Ūnohr, tomou uma decisão.
Ela sabia que os Thürvir não podiam destruir Tronvix, pois sua essência vinha do mesmo Criador. Apenas contê-lo seria possível — e isso exigiria um preço.
Vaelthira reuniu toda a energia dos céus e lançou-se contra Tronvix como um raio vivo. Seu poder purificou legiões inteiras e abriu caminho para a vitória.
Mas Tronvix respondeu com toda sua escuridão.
Em seu último momento, Vaelthira liberou um relâmpago final, enfraquecendo o traidor e tornando possível sua derrota.
Sua forma celestial se desfez em luz.
O local onde caiu tornou-se um campo de vidro eterno, marcado por tempestades que jamais cessam.
Durante a queda de Tronvix, Nazkaar desapareceu no caos da batalha. Até hoje, não se sabe se foi destruído, selado ou se ainda caminha oculto em Anossovan.
A Era do Esquecimento
Após a Guerra Jamais Esquecida e o banimento de Tronvix, o destino de Nazkaar, seu general e primeiro mago de Anossovan, permaneceu desconhecido. Seu corpo jamais foi encontrado. Alguns acreditam que ele ainda vague pelas sombras do mundo, aguardando o momento em que as correntes de Nivénia se enfraquecerão.
Mas o maior temor dos homens não era apenas o mago.
Durante a guerra, Nazkaar criou os Kael’Zuun, um exército de criaturas mortas-vivas: guerreiros caídos, bestas corrompidas e dragões reanimados pela magia do Vazio. Mesmo após a derrota de Tronvix, muitos desses horrores desapareceram sem deixar rastros.
Temendo que a memória desse poder alimentasse o caos, os reis e sábios humanos reuniram-se no antigo Conclave das Cinzas. Ali decretaram que os nomes de Nazkaar, dos Kael’Zuun e de tudo que estivesse ligado ao exército morto-vivo seriam apagados da história.
Livros foram queimados. Símbolos destruídos. Relatos proibidos.
A crença tornou-se lei: lembrar era invocar.
Assim nasceu a Tradição do Silêncio. Com o passar das eras, a Guerra Jamais Esquecida tornou-se, para os homens, uma guerra esquecida.
Ainda hoje, ruínas são evitadas, antigas batalhas não são mencionadas e certas palavras jamais são pronunciadas.
Pois há quem acredite que o silêncio não destrói o passado… apenas o mantém adormecido.
E que, enquanto alguém se lembrar, os Kael’Zuun podem despertar novamente.

