
Capitulo 04: O Aparecimendo da coruja
A porta da taverna abriu-se com um rangido pesado, deixando escapar o calor do interior para o ar frio da tarde. O contraste era quase violento, como se o mundo lá fora fosse outro.
Magnes foi a primeira a sair.
Seus olhos percorreram a rua com atenção: as pedras úmidas da estrada, o céu cinzento pressionando as casas baixas, os poucos moradores caminhando depressa demais, evitando olhares.
Algo naquele lugar parecia… inquieto.
Cedric saiu logo atrás, ajustando o cinto da espada com naturalidade.
Dart veio em seguida, espreguiçando-se e bocejando alto.
— Ainda não acredito que vamos atravessar meio continente por causa de uma mensagem — resmungou. — Espero que a comida no caminho seja melhor que a dessa taverna.
Cedric soltou um pequeno sorriso.
— Se sobreviver até lá, já é lucro.
O guarda Maxxiel foi o último a sair. Ele segurava com firmeza o pergaminho selado com o brasão da Casa Skarsson.
Seu olhar era sério.
— Precisamos nos apressar. Cada dia de atraso pode custar vidas.
Magnes cruzou os braços.
— E cada passo apressado pode custar as nossas. Primeiro, os cavalos.
O pequeno estábulo ficava na extremidade da vila.
O cheiro de feno, couro e terra úmida dominava o lugar. Um velho tratador cuidava dos animais enquanto algumas moedas trocavam de mãos.
Logo três cavalos foram preparados.
Dart olhou ao redor.
— Só três?
— O quarto está vindo — respondeu Maxxiel. — Um animal de guerra. Vai carregar suprimentos.
Cedric passou a mão pelo pescoço de um dos cavalos, avaliando-o.
— Nada mal.
Magnes, porém, parecia distante.
Seus dedos tremiam levemente.
— Tem algo errado — murmurou.
Cedric imediatamente ficou alerta.
— O que foi?
— Não sei… o ar está pesado.
Dart riu.
— Isso se chama ansiedade.
Magnes não respondeu.
Seus olhos estavam fixos além do estábulo.
Na direção de uma colina coberta por névoa.
Lá, no galho seco de uma árvore morta, algo estava pousado.
Uma coruja.
Mas não era uma coruja comum.
Era grande demais.
Suas penas eram negras como carvão, e o corpo parecia pesado demais para aquela forma. Porém, o que fez o sangue de Magnes gelar foram os olhos.
Quatro.
Dois maiores, como os de qualquer ave…
E dois menores logo acima.
Brilhando com uma luz pálida e antinatural.
A criatura estava imóvel.
Observando.
Magnes sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Cedric… — murmurou.
— O que foi?
Mas antes que ela pudesse responder, a coruja abriu as asas.
O movimento foi silencioso.
Estranho.
Quase errado.
Em um único impulso, ela desapareceu na névoa.
Magnes piscou.
— Nada… esquece.
— Nada? — perguntou Dart.
— Vamos logo.
Naquele momento o quarto cavalo chegou.
Um animal grande, de pelagem escura e olhar inquieto.
Maxxiel montou.
— A estrada para o sul é longa.
Cedric montou também.
— Então não vamos perder tempo.
Magnes foi a última a subir na sela.
Antes de partir, lançou um último olhar para a colina.
A névoa cobria tudo.
Nada estava lá.
Ou ao menos era o que parecia.
Muito acima da névoa, ocultos entre os galhos mais altos da árvore morta…
quatro olhos ainda observavam.
A coruja não havia ido embora.
Apenas mudara de lugar.
Os cavalos partiram em trote leve, deixando a vila para trás.
A estrada serpenteava entre campos úmidos e pequenas colinas.
Logo a neblina engoliu as casas.
Mas eles não estavam sozinhos.
Na colina, entre as árvores tortas, a névoa se moveu.
Um homem surgiu.
Alto. Ombros largos. Envolto em peles e couro bruto.
Seu rosto era marcado por cicatrizes antigas. Cabelos longos e desgrenhados caíam sobre os olhos. Na pele, marcas tribais profundas formavam símbolos talhados com lâmina.
Ele observava a estrada.
Silencioso.
Imóvel.
Então inclinou a cabeça, como se escutasse algo distante.
Um sorriso lento surgiu em seu rosto.
— Finalmente…
Ele levou dois dedos à boca e soltou um assobio baixo.
O som desapareceu na floresta.
Muito longe dali…
outro assobio respondeu.
O homem virou-se para a escuridão da mata.
E desapareceu.
A jornada rumo ao sul — às terras de Valdrenn-Alta — havia começado.
Muito ao norte, a cidade de Velkárion permanecia sob o silêncio pesado do grande salão do conselho.
Tochas tremulavam nas paredes altas, projetando sombras que pareciam se mover pelas colunas antigas.
O homem misterioso permanecia diante do trono.
Imóvel.
As marcas azul-marinho que cobriam seu rosto e braços não eram tatuagens comuns.
Eram runas da antiga língua Thürkratyr.
O rei Alaric Sollriel observava os conselheiros ao redor.
— Temos diante de nós uma oportunidade capaz de mudar o destino de Velkárion.
Valerius cruzou os braços.
— Ou de destruí-lo, por confiar em um estranho.
O homem ergueu os olhos com calma.
— A escolha não é confiar em mim.
— É decidir se desejam vencer.
Caelum deu um passo à frente.
— Esse minério. Onde está?
— Em um local antigo. Esquecido até mesmo pelos Thurvir.
Ele fez uma pausa.
— Nas profundezas de Tharvok.
Um murmúrio percorreu o salão.
O general Rhodolpfo falou com voz firme:
— Nenhum homem foi até lá e voltou vivo.
— Nenhum homem com o conhecimento que possuo — respondeu o estranho.
O rei assentiu lentamente.
— Então enviaremos um grupo.
Ele se levantou do trono.
— Caelum Sollriel.
— General Rhodolpfo.
— Rhaegor Valtress.
Seus olhos voltaram-se para o estranho.
— E você será o guia.
Marfin interveio:
— Majestade, talvez seja melhor mantê-lo aqui sob vigilância.
O rei ponderou por um instante.
— Como acharem mais prudente.
Antes de sair, Caelum aproximou-se do estranho.
— Ainda não disse quem é.
O homem sorriu levemente.
— Ora, pequeno príncipe…
— Sou Azaelor.
Ele ergueu os olhos lentamente.
— Azaelor, o Feiticeiro Arcano.
Um vento atravessou as janelas altas.
E as tochas tremularam.
Tochas tremulavam nas paredes altas, projetando sombras que pareciam se mover pelas colunas antigas.
O homem misterioso permanecia diante do trono.
Imóvel.
As marcas azul-marinho que cobriam seu rosto e braços não eram tatuagens comuns.
Eram runas da antiga língua Thürkratyr.
O rei Alaric Sollriel observava os conselheiros ao redor.
— Temos diante de nós uma oportunidade capaz de mudar o destino de Velkárion.
Valerius cruzou os braços.
— Ou de destruí-lo, por confiar em um estranho.
O homem ergueu os olhos com calma.
— A escolha não é confiar em mim.
— É decidir se desejam vencer.
Caelum deu um passo à frente.
— Esse minério. Onde está?
— Em um local antigo. Esquecido até mesmo pelos Thurvir.
Ele fez uma pausa.
— Nas profundezas de Tharvok.
Um murmúrio percorreu o salão.
O general Rhodolpfo falou com voz firme:
— Nenhum homem foi até lá e voltou vivo.
— Nenhum homem com o conhecimento que possuo — respondeu o estranho.
O rei assentiu lentamente.
— Então enviaremos um grupo.
Ele se levantou do trono.
— Caelum Sollriel.
— General Rhodolpfo.
— Rhaegor Valtress.
Seus olhos voltaram-se para o estranho.
— E você será o guia.
Marfin interveio:
— Majestade, talvez seja melhor mantê-lo aqui sob vigilância.
O rei ponderou por um instante.
— Como acharem mais prudente.
Antes de sair, Caelum aproximou-se do estranho.
— Ainda não disse quem é.
O homem sorriu levemente.
— Ora, pequeno príncipe…
— Sou Azaelor.
Ele ergueu os olhos lentamente.
— Azaelor, o Feiticeiro Arcano.
Um vento atravessou as janelas altas.
E as tochas tremularam.
Enquanto deixava o salão, Azaelor caminhou pelos longos corredores do castelo. A luz diminuía à medida que os servos apagavam as tochas. O eco de seus passos soava como um presságio.
Então ele percebeu.
Alguém o observava.
Caelum estava parado no corredor, imóvel. A luz de uma única tocha iluminava metade de seu rosto.
Azaelor parou.
O silêncio entre eles era pesado.
— Eu não confio em você — disse o príncipe.
Azaelor inclinou a cabeça.
— Isso é sábio.
— Mas, se realmente nos levar à vitória… serei grato.
Os olhos de Caelum endureceram.
— Porém, se houver mentiras… eu mesmo cortarei sua garganta.
Azaelor sorriu levemente.
Não com arrogância. Mas com algo antigo.
— Príncipe, a desconfiança é o que mantém os homens vivos.
Ele deu um passo.
— Guarde sua lâmina. Você irá precisar dela… mas não contra mim.
— Contra quem?
Os olhos de Azaelor tornaram-se ainda mais profundos.
— Contra aquilo que despertou muito antes desta guerra.
Uma rajada de vento atravessou o corredor, apagando a tocha.
Quando a luz retornou, Azaelor já havia passado.
Caelum permaneceu imóvel.
Pela primeira vez, não conseguia prever o futuro.
E isso o aterrorizava.
Então ele percebeu.
Alguém o observava.
Caelum estava parado no corredor, imóvel. A luz de uma única tocha iluminava metade de seu rosto.
Azaelor parou.
O silêncio entre eles era pesado.
— Eu não confio em você — disse o príncipe.
Azaelor inclinou a cabeça.
— Isso é sábio.
— Mas, se realmente nos levar à vitória… serei grato.
Os olhos de Caelum endureceram.
— Porém, se houver mentiras… eu mesmo cortarei sua garganta.
Azaelor sorriu levemente.
Não com arrogância. Mas com algo antigo.
— Príncipe, a desconfiança é o que mantém os homens vivos.
Ele deu um passo.
— Guarde sua lâmina. Você irá precisar dela… mas não contra mim.
— Contra quem?
Os olhos de Azaelor tornaram-se ainda mais profundos.
— Contra aquilo que despertou muito antes desta guerra.
Uma rajada de vento atravessou o corredor, apagando a tocha.
Quando a luz retornou, Azaelor já havia passado.
Caelum permaneceu imóvel.
Pela primeira vez, não conseguia prever o futuro.
E isso o aterrorizava.
Enquanto isso, muito ao sul, os quatro cavaleiros avançavam pela estrada úmida.
O som dos cascos quebrava o silêncio da manhã.
Dart foi o primeiro a falar.
— Então… vamos atravessar meio continente juntos e ninguém vai dizer nada?
Cedric respondeu sem olhar para ele.
— O silêncio mantém as pessoas vivas.
— E o tédio as mata.
Magnes permanecia quieta.
Seus olhos percorriam o horizonte.
Algo estava errado.
Por um instante, uma sombra cruzou o céu acima deles.
Silenciosa.
Magnes ergueu os olhos rapidamente.
Mas as nuvens já haviam engolido o que quer que fosse.
Ela apertou as rédeas.
A imagem da coruja ainda estava em sua mente.
Quatro olhos.
Observando.
O som dos cascos quebrava o silêncio da manhã.
Dart foi o primeiro a falar.
— Então… vamos atravessar meio continente juntos e ninguém vai dizer nada?
Cedric respondeu sem olhar para ele.
— O silêncio mantém as pessoas vivas.
— E o tédio as mata.
Magnes permanecia quieta.
Seus olhos percorriam o horizonte.
Algo estava errado.
Por um instante, uma sombra cruzou o céu acima deles.
Silenciosa.
Magnes ergueu os olhos rapidamente.
Mas as nuvens já haviam engolido o que quer que fosse.
Ela apertou as rédeas.
A imagem da coruja ainda estava em sua mente.
Quatro olhos.
Observando.
Os cavalos avançavam pela estrada úmida, o som ritmado dos cascos quebrando o silêncio da manhã. A névoa começava a se dissipar, revelando campos amplos e colinas suaves. Ainda assim, o grupo cavalgava em quietude, como se cada um carregasse seus próprios pensamentos.
Dart foi o primeiro a falar.
— Então… vamos atravessar meio continente juntos e ninguém vai dizer nada? Nem história, nem segredos, nem confissões trágicas?
Cedric não olhou para ele.
— O silêncio mantém as pessoas vivas.
— E o tédio as mata — respondeu Dart. — Vamos, ao menos algo interessante. Maxxiel? Você parece o tipo que segue ordens até o fim.
O guarda ajeitou o manto.
— Eu sigo a Casa Skarsson. Isso basta.
— Lealdade cega — disse Dart. — Admirável… e perigosa.
— E você? — perguntou Cedric.
Dart sorriu.
— Ouro.
— Não acredito.
— Certo… metade ouro. A outra metade curiosidade.
Cedric soltou um pequeno suspiro.
— Curiosidade mata.
— Também salva.
O vento soprou entre as árvores. Magnes permanecia em silêncio, mas sua atenção não estava na conversa. Seus olhos percorriam o horizonte com inquietação.
Cedric percebeu.
— Você está distante desde que saímos da vila.
Magnes demorou a responder.
— Apenas… tentando sentir o caminho.
Dart arqueou a sobrancelha.
— Sentir?
— Há lugares onde a magia é mais densa. Onde o mundo parece… errado.
— E aqui? — perguntou Maxxiel.
Ela hesitou.
— Ainda não sei.
O silêncio voltou por alguns instantes. Então Dart falou novamente:
— Certo. Minha vez de perguntar algo importante. Qual de vocês vai me salvar primeiro quando algo tentar me matar?
— Ninguém — respondeu Cedric.
— Cruel.
Magnes quase sorriu, mas a expressão morreu rápido.
Algo estava errado.
O ar parecia pesado outra vez.
Ela lançou um olhar para trás, para a estrada que haviam deixado.
Nada.
Ainda assim, a sensação não passava.
Quatro pontos pálidos surgiram em sua mente.
Olhos.
Quatro olhos.
Magnes apertou as rédeas.
— Precisamos manter distância das florestas densas — disse de repente.
Os outros a olharam.
— Por quê? — perguntou Maxxiel.
— Instinto.
Dart riu.
— Ótimo. Agora seguimos conselhos baseados em “instinto”.
Cedric, porém, não riu.
— O que você sentiu?
Magnes hesitou.
Ela não queria parecer fraca. Nem louca.
— Apenas… um presságio.
— De quê?
— De que estamos sendo observados.
O grupo ficou em silêncio.
Dart falou primeiro:
— Isso é reconfortante.
— Não estou brincando.
— Eu sei — disse ele, mas o humor havia desaparecido de seus olhos. — E você viu algo?
Magnes desviou o olhar.
Por um momento, quase contou.
A colina.
A criatura.
As asas silenciosas.
Os quatro olhos.
Mas algo dentro dela disse que não deveria.
— Não — respondeu por fim. — Apenas uma sensação.
Cedric a observou por alguns segundos, como se tentasse ler o que ela escondia.
— Então vamos considerar isso um aviso.
Maxxiel assentiu.
— Redobraremos a vigilância.
Dart suspirou.
— Perfeito. Viagem longa, pouco ouro, comida duvidosa e agora paranoia. Vai ser divertido.
Magnes voltou o olhar para o horizonte.
Mas, por dentro, a imagem permanecia viva.
Aquela coruja não era um animal.
Era um mensageiro.
Um espião. Ou pior...um preságio.
Dart foi o primeiro a falar.
— Então… vamos atravessar meio continente juntos e ninguém vai dizer nada? Nem história, nem segredos, nem confissões trágicas?
Cedric não olhou para ele.
— O silêncio mantém as pessoas vivas.
— E o tédio as mata — respondeu Dart. — Vamos, ao menos algo interessante. Maxxiel? Você parece o tipo que segue ordens até o fim.
O guarda ajeitou o manto.
— Eu sigo a Casa Skarsson. Isso basta.
— Lealdade cega — disse Dart. — Admirável… e perigosa.
— E você? — perguntou Cedric.
Dart sorriu.
— Ouro.
— Não acredito.
— Certo… metade ouro. A outra metade curiosidade.
Cedric soltou um pequeno suspiro.
— Curiosidade mata.
— Também salva.
O vento soprou entre as árvores. Magnes permanecia em silêncio, mas sua atenção não estava na conversa. Seus olhos percorriam o horizonte com inquietação.
Cedric percebeu.
— Você está distante desde que saímos da vila.
Magnes demorou a responder.
— Apenas… tentando sentir o caminho.
Dart arqueou a sobrancelha.
— Sentir?
— Há lugares onde a magia é mais densa. Onde o mundo parece… errado.
— E aqui? — perguntou Maxxiel.
Ela hesitou.
— Ainda não sei.
O silêncio voltou por alguns instantes. Então Dart falou novamente:
— Certo. Minha vez de perguntar algo importante. Qual de vocês vai me salvar primeiro quando algo tentar me matar?
— Ninguém — respondeu Cedric.
— Cruel.
Magnes quase sorriu, mas a expressão morreu rápido.
Algo estava errado.
O ar parecia pesado outra vez.
Ela lançou um olhar para trás, para a estrada que haviam deixado.
Nada.
Ainda assim, a sensação não passava.
Quatro pontos pálidos surgiram em sua mente.
Olhos.
Quatro olhos.
Magnes apertou as rédeas.
— Precisamos manter distância das florestas densas — disse de repente.
Os outros a olharam.
— Por quê? — perguntou Maxxiel.
— Instinto.
Dart riu.
— Ótimo. Agora seguimos conselhos baseados em “instinto”.
Cedric, porém, não riu.
— O que você sentiu?
Magnes hesitou.
Ela não queria parecer fraca. Nem louca.
— Apenas… um presságio.
— De quê?
— De que estamos sendo observados.
O grupo ficou em silêncio.
Dart falou primeiro:
— Isso é reconfortante.
— Não estou brincando.
— Eu sei — disse ele, mas o humor havia desaparecido de seus olhos. — E você viu algo?
Magnes desviou o olhar.
Por um momento, quase contou.
A colina.
A criatura.
As asas silenciosas.
Os quatro olhos.
Mas algo dentro dela disse que não deveria.
— Não — respondeu por fim. — Apenas uma sensação.
Cedric a observou por alguns segundos, como se tentasse ler o que ela escondia.
— Então vamos considerar isso um aviso.
Maxxiel assentiu.
— Redobraremos a vigilância.
Dart suspirou.
— Perfeito. Viagem longa, pouco ouro, comida duvidosa e agora paranoia. Vai ser divertido.
Magnes voltou o olhar para o horizonte.
Mas, por dentro, a imagem permanecia viva.
Aquela coruja não era um animal.
Era um mensageiro.
Um espião. Ou pior...um preságio.
O entardecer cobria o mar com tons frios e profundos.
O céu estava manchado de cinza e violeta, como se o próprio dia estivesse morrendo lentamente sobre as águas do Norte.
Yasaf apoiava-se na amurada, observando o horizonte escuro. O vento ainda era cruel, carregando o cheiro do gelo e da tempestade que parecia sempre espreitar aquelas rotas.
— Não consegue ficar parado, consegue?
A voz veio atrás dele.
Yasaf virou-se. O capitão Darek caminhava em sua direção, segurando uma garrafa e dois copos de metal.
— Nunca vi um mar tão… hostil — respondeu o jovem.
Darek encostou-se ao lado dele e entregou um dos copos.
— O Norte não perdoa ninguém.
Yasaf bebeu. O líquido queimou a garganta e desceu como fogo.
— Pelos deuses…
— Mantém o corpo vivo.
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, observando o sol lutar para atravessar as nuvens densas.
— Você sempre viajou por essas rotas? — perguntou Yasaf.
— Desde antes de você nascer.
— E nunca morreu?
Darek sorriu de lado.
— Ainda não.
— Quantos morreram sob seu comando?
O capitão não respondeu de imediato. O olhar dele estava fixo no horizonte.
— O suficiente para saber que o mar não é inimigo. Ele apenas cobra o preço.
O vento aumentou de repente.
O navio estremeceu.
As nuvens escureceram como se algo tivesse apagado o céu.
— Segure-se — disse Darek, já alerta.
O primeiro trovão rasgou o ar.
O mar explodiu em fúria.
Ondas gigantes se ergueram, golpeando o casco. Marinheiros correram. Cordas foram puxadas. Gritos ecoaram.
— Yasaf! Essa corda! Agora!
Ele correu, agarrando a linha molhada. A força do vento quase o derrubou.
A água gelada atingia seu rosto, cegando, sufocando. Cada onda parecia capaz de engolir o mundo.
— Puxe! — gritou Darek.
O jovem puxou com toda a força. Os braços ardiam. Os dedos sangravam.
Por um momento, o navio inclinou-se perigosamente.
O mundo pareceu girar.
Mas então…
Como veio, a tempestade começou a recuar.
O trovão se afastou.
O vento enfraqueceu.
A chuva virou apenas um sussurro.
Os homens começaram a respirar.
O navio estabilizou.
Yasaf caiu de joelhos, ofegante, rindo entre o cansaço e a adrenalina.
Darek aproximou-se.
— Ainda quer riqueza?
Yasaf ergueu o rosto, os cabelos colados à testa.
— Mais do que nunca.
O capitão assentiu.
— Bom.
Ele olhou para o horizonte.
E então congelou por um instante.
— Veja.
O sol surgia entre as nuvens, rompendo o céu como uma lâmina dourada.
A luz tocou o mar.
E tudo mudou.
A escuridão se dissolveu. As águas deixaram de ser negras e mortas. Tornaram-se azuis, profundas, vivas. Reflexos dourados dançavam sobre as ondas.
O gelo desaparecia ao longe.
O ar parecia mais leve.
— Estamos saindo da rota Norte — disse Darek. — A partir daqui, começa o Sul.
Yasaf não respondeu.
Ele apenas observava.
Os olhos arregalados.
A luz refletia em seu rosto.
O mar brilhava.
Era a primeira vez que via aquilo.
No Norte, o mar era cinza, congelado, um túmulo líquido.
Ali… parecia infinito.
Um caminho aberto.
Um convite.
Um sorriso lento e genuíno surgiu em seu rosto.
— Então é assim que o mundo realmente é…
Darek o observou com interesse.
— E isso é só o começo.
Yasaf respirou fundo. O calor do sol tocava sua pele pela primeira vez desde que partira.
Ele sentiu algo novo.
Esperança.
Ambição.
Destino.
— Valdrenn… — murmurou.
Seus olhos brilharam.
— Estou chegando.
O navio seguiu adiante, atravessando a linha invisível entre o frio e o fogo, entre o passado e o futuro.
E, sem que Yasaf percebesse, Darek sorriu.
Como alguém que já sabia exatamente onde aquele caminho terminaria.
O céu estava manchado de cinza e violeta, como se o próprio dia estivesse morrendo lentamente sobre as águas do Norte.
Yasaf apoiava-se na amurada, observando o horizonte escuro. O vento ainda era cruel, carregando o cheiro do gelo e da tempestade que parecia sempre espreitar aquelas rotas.
— Não consegue ficar parado, consegue?
A voz veio atrás dele.
Yasaf virou-se. O capitão Darek caminhava em sua direção, segurando uma garrafa e dois copos de metal.
— Nunca vi um mar tão… hostil — respondeu o jovem.
Darek encostou-se ao lado dele e entregou um dos copos.
— O Norte não perdoa ninguém.
Yasaf bebeu. O líquido queimou a garganta e desceu como fogo.
— Pelos deuses…
— Mantém o corpo vivo.
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, observando o sol lutar para atravessar as nuvens densas.
— Você sempre viajou por essas rotas? — perguntou Yasaf.
— Desde antes de você nascer.
— E nunca morreu?
Darek sorriu de lado.
— Ainda não.
— Quantos morreram sob seu comando?
O capitão não respondeu de imediato. O olhar dele estava fixo no horizonte.
— O suficiente para saber que o mar não é inimigo. Ele apenas cobra o preço.
O vento aumentou de repente.
O navio estremeceu.
As nuvens escureceram como se algo tivesse apagado o céu.
— Segure-se — disse Darek, já alerta.
O primeiro trovão rasgou o ar.
O mar explodiu em fúria.
Ondas gigantes se ergueram, golpeando o casco. Marinheiros correram. Cordas foram puxadas. Gritos ecoaram.
— Yasaf! Essa corda! Agora!
Ele correu, agarrando a linha molhada. A força do vento quase o derrubou.
A água gelada atingia seu rosto, cegando, sufocando. Cada onda parecia capaz de engolir o mundo.
— Puxe! — gritou Darek.
O jovem puxou com toda a força. Os braços ardiam. Os dedos sangravam.
Por um momento, o navio inclinou-se perigosamente.
O mundo pareceu girar.
Mas então…
Como veio, a tempestade começou a recuar.
O trovão se afastou.
O vento enfraqueceu.
A chuva virou apenas um sussurro.
Os homens começaram a respirar.
O navio estabilizou.
Yasaf caiu de joelhos, ofegante, rindo entre o cansaço e a adrenalina.
Darek aproximou-se.
— Ainda quer riqueza?
Yasaf ergueu o rosto, os cabelos colados à testa.
— Mais do que nunca.
O capitão assentiu.
— Bom.
Ele olhou para o horizonte.
E então congelou por um instante.
— Veja.
O sol surgia entre as nuvens, rompendo o céu como uma lâmina dourada.
A luz tocou o mar.
E tudo mudou.
A escuridão se dissolveu. As águas deixaram de ser negras e mortas. Tornaram-se azuis, profundas, vivas. Reflexos dourados dançavam sobre as ondas.
O gelo desaparecia ao longe.
O ar parecia mais leve.
— Estamos saindo da rota Norte — disse Darek. — A partir daqui, começa o Sul.
Yasaf não respondeu.
Ele apenas observava.
Os olhos arregalados.
A luz refletia em seu rosto.
O mar brilhava.
Era a primeira vez que via aquilo.
No Norte, o mar era cinza, congelado, um túmulo líquido.
Ali… parecia infinito.
Um caminho aberto.
Um convite.
Um sorriso lento e genuíno surgiu em seu rosto.
— Então é assim que o mundo realmente é…
Darek o observou com interesse.
— E isso é só o começo.
Yasaf respirou fundo. O calor do sol tocava sua pele pela primeira vez desde que partira.
Ele sentiu algo novo.
Esperança.
Ambição.
Destino.
— Valdrenn… — murmurou.
Seus olhos brilharam.
— Estou chegando.
O navio seguiu adiante, atravessando a linha invisível entre o frio e o fogo, entre o passado e o futuro.
E, sem que Yasaf percebesse, Darek sorriu.
Como alguém que já sabia exatamente onde aquele caminho terminaria.
O sol já havia subido alto quando partiram, mas agora descia rápido no horizonte. A luz tornava-se dourada e oblíqua, e as sombras se alongavam como dedos escuros entre as árvores.
A estrada começou a desaparecer.
O caminho de terra tornou-se irregular, quebrado, quase engolido pela vegetação. Árvores antigas erguiam-se ao redor, seus troncos grossos como muralhas. Os galhos se entrelaçavam acima deles, formando um teto natural que filtrava a luz em faixas estreitas e frias.
O ar ali era mais denso. Mais pesado.
— Não gosto disso — murmurou Dart, olhando ao redor. — Estradas que somem nunca trazem boas histórias.
— Não é uma estrada oficial — disse Maxxiel, mantendo os olhos à frente. — É um atalho antigo. Usado por mercadores antes da guerra do Norte.
— Antes da guerra… — repetiu Cedric, a voz baixa. — E por que deixaram de usar?
Maxxiel hesitou.
— Ataques. Desaparecimentos. Nada comprovado.
— Reconfortante — disse Dart.
Magnes não prestava atenção na conversa. Observava as árvores.
O silêncio ali era errado.
Não havia pássaros.
Nem insetos.
Nem o som de pequenos animais.
Apenas o vento distante… e mesmo ele parecia evitar aquela floresta.
O sol afundava cada vez mais. A luz diminuía rápido demais.
De repente, o cavalo de Magnes parou.
— O que foi? — perguntou Cedric.
Ela apontou para o chão.
Havia marcas na terra.
Pegadas.
Descalças.
Profundas.
— Mercadores não andam sem botas — disse Cedric.
Maxxiel desmontou, ajoelhando-se.
— São recentes.
Dart franziu a testa.
— Bandidos?
Magnes negou lentamente.
— Não.
Ela tocou uma das pegadas. A terra ainda estava úmida.
— Eles não usam ferro. Nem couro. Nem trilhas.
— Quem? — perguntou Maxxiel.
Magnes demorou a responder.
O sol já tocava as copas das árvores. A floresta mergulhava em tons escuros e azulados.
— Povos antigos. Tribos que vivem longe dos reinos. Alguns os chamam de selvagens.
Dart sorriu, mas havia tensão em seus olhos.
— Ótimo. Talvez eles tenham comida melhor.
Cedric ignorou.
— Pensei que essas tribos tivessem desaparecido.
— Algumas — respondeu Magnes. — Outras apenas se esconderam.
O vento soprou entre as árvores.
Um som surgiu.
Muito fraco.
Como um assobio.
Ou um chamado.
Todos ficaram imóveis.
A névoa começava a rastejar pelo chão, fina e pálida.
— Você ouviu isso? — murmurou Dart.
Maxxiel levou a mão ao punho da espada.
O som veio outra vez.
Seco. Arrastado.
Mais próximo.
Ou mais distante.
Era impossível dizer.
A floresta não devolvia ecos.
Ela os engolia.
Cedric inclinou a cabeça, tentando localizar a origem.
— Não estamos sozinhos.
Magnes sentiu o mesmo peso de antes. A mesma pressão invisível. O ar parecia espesso, difícil de respirar, como se a própria noite estivesse viva e se aproximando.
Ela ergueu o olhar.
As folhas não se moviam.
O vento não soprava.
Mesmo assim, por um instante, ela viu algo deslizar entre os galhos.
Uma forma.
Uma sombra que não pertencia à escuridão.
Quando piscou, não havia nada.
— Eles estão nos observando — disse, sem tirar os olhos das copas.
— Tem certeza? — perguntou Maxxiel.
Magnes assentiu.
— E estão nos seguindo… desde a vila.
Dart sentiu um arrepio.
— Desde a vila?
Nenhuma resposta.
O sol desapareceu.
A floresta escureceu de uma vez, como se alguém tivesse fechado uma porta.
O frio aumentou.
O assobio cessou.
O silêncio voltou.
Mas não era vazio.
Era um silêncio que escutava.
Maxxiel se levantou rapidamente.
— Precisamos sair daqui antes da noite.
— Se escurecer… — disse Cedric.
— Eles vão atacar — completou Magnes.
Um estalo soou atrás deles.
Depois outro.
Ramos quebrando.
Algo se movia na mata.
Mais de uma coisa.
Dart girou o machado na mão.
— Agora ficou interessante.
Maxxiel montou de novo.
— Não. Agora ficou perigoso. Se formos cercados aqui, estamos mortos.
Outro assobio.
Desta vez, mais próximo.
Mais alto.
Respondido por outro… e outro.
Chamados.
Sinais.
Cercando-os.
Os cavalos começaram a ficar inquietos.
— Eles estão nos guiando — disse Magnes. — Empurrando para dentro da floresta.
Cedric olhou para o caminho escuro à frente.
— Então vamos fazer o contrário.
Maxxiel puxou as rédeas.
— Galopem. Agora.
E então avançaram.
Atrás deles, entre as árvores, sombras começaram a correr.
E a noite caiu.
A estrada começou a desaparecer.
O caminho de terra tornou-se irregular, quebrado, quase engolido pela vegetação. Árvores antigas erguiam-se ao redor, seus troncos grossos como muralhas. Os galhos se entrelaçavam acima deles, formando um teto natural que filtrava a luz em faixas estreitas e frias.
O ar ali era mais denso. Mais pesado.
— Não gosto disso — murmurou Dart, olhando ao redor. — Estradas que somem nunca trazem boas histórias.
— Não é uma estrada oficial — disse Maxxiel, mantendo os olhos à frente. — É um atalho antigo. Usado por mercadores antes da guerra do Norte.
— Antes da guerra… — repetiu Cedric, a voz baixa. — E por que deixaram de usar?
Maxxiel hesitou.
— Ataques. Desaparecimentos. Nada comprovado.
— Reconfortante — disse Dart.
Magnes não prestava atenção na conversa. Observava as árvores.
O silêncio ali era errado.
Não havia pássaros.
Nem insetos.
Nem o som de pequenos animais.
Apenas o vento distante… e mesmo ele parecia evitar aquela floresta.
O sol afundava cada vez mais. A luz diminuía rápido demais.
De repente, o cavalo de Magnes parou.
— O que foi? — perguntou Cedric.
Ela apontou para o chão.
Havia marcas na terra.
Pegadas.
Descalças.
Profundas.
— Mercadores não andam sem botas — disse Cedric.
Maxxiel desmontou, ajoelhando-se.
— São recentes.
Dart franziu a testa.
— Bandidos?
Magnes negou lentamente.
— Não.
Ela tocou uma das pegadas. A terra ainda estava úmida.
— Eles não usam ferro. Nem couro. Nem trilhas.
— Quem? — perguntou Maxxiel.
Magnes demorou a responder.
O sol já tocava as copas das árvores. A floresta mergulhava em tons escuros e azulados.
— Povos antigos. Tribos que vivem longe dos reinos. Alguns os chamam de selvagens.
Dart sorriu, mas havia tensão em seus olhos.
— Ótimo. Talvez eles tenham comida melhor.
Cedric ignorou.
— Pensei que essas tribos tivessem desaparecido.
— Algumas — respondeu Magnes. — Outras apenas se esconderam.
O vento soprou entre as árvores.
Um som surgiu.
Muito fraco.
Como um assobio.
Ou um chamado.
Todos ficaram imóveis.
A névoa começava a rastejar pelo chão, fina e pálida.
— Você ouviu isso? — murmurou Dart.
Maxxiel levou a mão ao punho da espada.
O som veio outra vez.
Seco. Arrastado.
Mais próximo.
Ou mais distante.
Era impossível dizer.
A floresta não devolvia ecos.
Ela os engolia.
Cedric inclinou a cabeça, tentando localizar a origem.
— Não estamos sozinhos.
Magnes sentiu o mesmo peso de antes. A mesma pressão invisível. O ar parecia espesso, difícil de respirar, como se a própria noite estivesse viva e se aproximando.
Ela ergueu o olhar.
As folhas não se moviam.
O vento não soprava.
Mesmo assim, por um instante, ela viu algo deslizar entre os galhos.
Uma forma.
Uma sombra que não pertencia à escuridão.
Quando piscou, não havia nada.
— Eles estão nos observando — disse, sem tirar os olhos das copas.
— Tem certeza? — perguntou Maxxiel.
Magnes assentiu.
— E estão nos seguindo… desde a vila.
Dart sentiu um arrepio.
— Desde a vila?
Nenhuma resposta.
O sol desapareceu.
A floresta escureceu de uma vez, como se alguém tivesse fechado uma porta.
O frio aumentou.
O assobio cessou.
O silêncio voltou.
Mas não era vazio.
Era um silêncio que escutava.
Maxxiel se levantou rapidamente.
— Precisamos sair daqui antes da noite.
— Se escurecer… — disse Cedric.
— Eles vão atacar — completou Magnes.
Um estalo soou atrás deles.
Depois outro.
Ramos quebrando.
Algo se movia na mata.
Mais de uma coisa.
Dart girou o machado na mão.
— Agora ficou interessante.
Maxxiel montou de novo.
— Não. Agora ficou perigoso. Se formos cercados aqui, estamos mortos.
Outro assobio.
Desta vez, mais próximo.
Mais alto.
Respondido por outro… e outro.
Chamados.
Sinais.
Cercando-os.
Os cavalos começaram a ficar inquietos.
— Eles estão nos guiando — disse Magnes. — Empurrando para dentro da floresta.
Cedric olhou para o caminho escuro à frente.
— Então vamos fazer o contrário.
Maxxiel puxou as rédeas.
— Galopem. Agora.
E então avançaram.
Atrás deles, entre as árvores, sombras começaram a correr.
E a noite caiu.
Lord of the Ages: Storm of the First Light 2026 © Lord of the Ages - Criado por Jose Rodolfo F F Júnior

